Progresso à vista para o setor lácteo brasileiro. Em dez anos, o número de vacas leiteiras diminuiu 12%, enquanto a produção de leite por vaca aumentou em 57%, permitindo que em 2003 a exportação atingisse a cifra de US$ 48 milhões, em virtude, principalmente, de leite condensado e leite em pó.

As entidades desta cadeia do agronegócio nacional desenvolveram muitas ações, buscando reduzir a informalidade, calculada em cerca de 47% do total de leite produzido no Brasil (Projeção 2003: 23 bilhões de litros/ano). Este mercado informal é constituído, basicamente, de leite in natura, queijos e outros derivados lácteos – que não sofrem nenhum tipo de tratamento térmico –, sendo consumidos nas zonas rurais e/ou vendidos aos consumidores dos centros urbanos.

Já o mercado formal de lácteos encontra-se com o seguinte perfil de produtos e respectivas participações: 44% de leite longa vida, 15% leite pasteurizado e 19% leite em pó. O maior centro consumidor se concentra no Estado de São Paulo, onde o consumo é superior a 60% da produção nacional, tendo assim uma grande concentração nas Regiões Sudeste e Sul do País, segundo o Ibope, IBGE e CNA.
Os grandes prejuízos do segmento formal de lácteos no País podem ser resumidos pela impossibilidade de assegurar a qualidade destes produtos, em função da já citada inexistência de processamento industrial, tratamento térmico, entre outros, e também pela sonegação fiscal. Vale ressaltar que os produtos lácteos, sem nenhuma exceção, sofrem uma forte carga tributária. Isso tudo faz com que o segmento informal de lácteos gere importante perda na arrecadação de recursos para as diversas esferas administrativas governamentais, além de causarem um desequilíbrio nas condições de concorrência no mercado.

Mas nem tudo está perdido e existem bons exemplos de inclusão eficiente destes produtores ao segmento formal. Dois exemplos recentes vêm de Alfenas (MG) e Camapuã (MS). Nestes dois municípios, foram envolvidos num projeto-piloto o governo municipal, estadual, indústria e, principalmente, várias entidades do setor laticinista. A Láctea Brasil, por exemplo, participou com o seu Programa Institucional de Marketing Educativo, intitulado ‘Beber leite é super legal’, que já atendeu 305 mil crianças do ensino fundamental.

As pesquisas realizadas com estes consumidores de produtos lácteos informais revelaram fatos surpreendentes e, até certo ponto, inquietantes, mostrando que este crescimento se deve à “alta valorização” destes produtos pelos entrevistados, além de preço ligeiramente mais baixo e de outras facilidades agregadas, gerando uma alta taxa de fidelização.

Isto só acontece no País pela falta de conhecimento e de esclarecimento da população brasileira em relação à importância do leite e dos derivados lácteos na sua alimentação, bem como da necessidade de se consumir produtos com a sua origem controlada e de qualidade assegurada, ou seja, provenientes do segmento formal e submetidos ao processamento industrial e fiscalização sanitária.

Por se tratar de uma questão cultural, o caminho a seguir, as decisões a serem tomadas para mudar esta realidade e o seu conjunto de ações passam necessariamente pela conscientização dos diversos tipos de consumidores, gerando hábitos mais saudáveis e seguros. Esta conscientização é importante para o País, uma vez que o esclarecimento destes consumidores sobre os benefícios do consumo de lácteos de qualidade gera ganhos para toda a cadeia láctea e também para os demais segmentos da sociedade, especialmente para a melhoria da saúde e instrução da população brasileira.

As variáveis que resultam na falta de informação e de hábito de consumo de leite e derivados são, num primeiro momento, boas oportunidades para serem trabalhadas no sentido de fomentar e incrementar o consumo de lácteos.

Mas este trabalho só poderá ser realizado na sua plenitude caso se consiga o engajamento dos mais diversos elos do setor lácteo, além do varejo, consumidores, setor público, entre outros.

Com este propósito é que surgiu no País, há cinco anos, a Láctea Brasil, ou seja, abrigando, sob um mesmo guarda-chuva, pela primeira vez na história, cerca de 160 representantes dos mais diversos segmentos da sociedade brasileira, que buscam conjuntamente consolidar e ampliar o trabalho convergente para o desenvolvimento sustentável do setor lácteo nacional, sempre calcado no aumento do consumo destes produtos pela população brasileira, além do incremento nas exportações.

Embora seja uma decisão intrínseca aos consumidores, a percepção de valor nos produtos ou serviços inicia-se pelo conhecimento e aprendizado acerca destes bens, ou seja, iniciando-se na escola (desde os primeiros anos de vida) e, finalmente, lá nos pontos-de-venda, que podem influenciar em até 80% de nossas decisões para adquirirmos ou não um produto e/ou serviço.

O marketing institucional de lácteos no Brasil deve, portanto, conter ações eficazes para o combate ao leite informal. Além disso, o setor precisa urgentemente trabalhar na unidade e convergência de todos os elos da cadeia deste importante segmento do agronegócio, visando a estimular e promover o seu desenvolvimento.

Isto aconteceu, por exemplo, no 3º Congresso Internacional do Leite, realizado em Araxá (MG), onde várias entidades elegeram muitas ações importantes para o progresso do mercado de lácteos no Brasil: inclusão do leite nos programas governamentais, garantir o efetivo funcionamento dos instrumentos de apoio à comercialização de leite e derivados, manter medidas antidumping, elevar o imposto de importação de leite em pó, queijos e soros para 35% e implementar um Programa de Retenção de Matrizes Bovinas.

A aprovação da Lei Nacional de Inclusão de Leite Fluido na Merenda Escolar a crianças do ensino fundamental, que beneficiará 37 milhões de crianças do País, se traduz num outro grande avanço para o setor. Tivemos ainda progressos importantes em diversas esferas, principalmente, na redução substancial no déficit da balança comercial de lácteos.

Ao que tudo indica, o setor está mais atento e procurando amadurecer para o fato de que a sua reordenação passa, obrigatoriamente, pelo fortalecimento do cooperativismo, redução da informalidade e da carga tributária, aumento nos canais alternativos de distribuição, além do imprescindível desenvolvimento do mercado, com significativos aumentos no consumo per capita de leite e derivados lácteos pela população brasileira.

Isto tudo é necessário, uma vez que o consumo de leite e derivados lácteos no Brasil é incipiente e está muito abaixo da recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), embora apresente um enorme potencial para incremento deste mercado.

O desafio do setor lácteo nacional, daqui para frente, é unir esforços dentro e fora desta cadeia, procurando abranger os mais diversos segmentos da sociedade brasileira, para operacionalizar e catalisar ações que resultem no incremento do consumo – única saída para sonharmos com um futuro próspero e sustentável para o nosso setor.

*José Roberto Begosso é gerente regional da Vitafort e coordenador comercial da Láctea Brasil (Publicado na Revista Leite & Derivados – Julho de 2004)
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