CPT - Centro de Produções Técnicas

A inflação de maio de 2007, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 0,28%. O grupo composto por leite e derivados se destacou com a maior alta (3,75%), sendo considerado o vilão do mês para a inflação. As primeiras indicações para a inflação de junho, medida pelo IPCA-15, também destacaram a pressão altista dos produtos lácteos, principalmente leite pasteurizado, cujo preço do litro ficou 7,85% mais caro. Os queijos, leite em pó e creme de leite também subiram, 2,13%, 1,98%, 1,95%, respectivamente. Enfim, o leite é a bola da vez. No mercado internacional, os preços estão com uma tendência de alta ainda mais nítida. Esses aumentos recordes de preços dos produtos lácteos se devem tanto a fatores de curto prazo quanto a causas estruturais, conforme estudo recente da FAO. A essência dos aumentos de preços refere-se ao fato de a oferta não ter acompanhado a demanda mundial. O incremento robusto de renda na Rússia e outros países em desenvolvimento continua sendo o motor do crescimento da demanda. Pelo lado da oferta, as secas recorrentes na Austrália, a imposição de tarifas na exportação da Argentina e a suspensão por seis meses da exportação de leite em pó na Índia enxugou o mercado mundial de leite. O aumento recente nos preços dos grãos, usados na ração, também tem prejudicado a rentabilidade dos produtores mais intensivos. Finalmente, a queda dos estoques públicos na União Européia (UE) e os cortes de subsídios praticados nas exportações da UE, tanto em termos de valor quanto de quantidade, completam a restrição de oferta. No mercado brasileiro, a elevação de preços de insumos, crescimento do consumo – motivado por uma melhoria da renda das famílias e baixo incremento do volume de captação no início do ano – são variáveis que ajudam a explicar o fenômeno no Brasil. Analisando os últimos 12 meses até maio de 2007 verificou-se que o preço do leite ao produtor subiu 14,6%, enquanto a ração, que representa parcela importante dos custos de produção de leite, apresentou valorização de 14,2%. No mercado atacadista, os preços de leite e derivados em conjunto, tiveram alta de 5,06%. Já no varejo, a elevação foi de 5,19% enquanto a inflação, medida pelo IPCA, ficou em 3,18%. Do ponto de vista do produtor, o incremento dos preços da ração, na esteira da decisão do governo norte-americano de estimular a produção de etanol via milho, foi atenuado pela alta recente dos preços do leite, o que evitou danos maiores sobre sua rentabilidade. Já no caso da indústria de laticínios, os preços de leite e derivados registraram valorização bem inferior em comparação com o preço pago ao produtor, o que indica aperto de margem bruta nesse elo da cadeia. Por fim, o varejo conseguiu repassar para o consumidor final toda a alta de preços ocorrida no atacado, possibilitando inclusive alguma recuperação de margem bruta de comercialização. Em síntese, nos últimos 12 meses até maio a indústria foi o elo da cadeia produtiva com maior dificuldade de repasse de preços, seja pelo poder de barganha dos varejistas ou pela competição setorial. Além disso, teve seus custos majorados pela dificuldade de abastecimento de matéria-prima, no caso o leite. Analisando um período maior, ou seja, entre janeiro de 2000 e maio de 2007, verifica-se que o consumidor foi o mais beneficiado. Isso porque, enquanto o preço de leite e derivados no varejo apresentou valorização de 61,15%, a inflação foi de 66,5%, indicando queda real de preços. Por outro lado, houve redução de margem bruta ao longo da cadeia produtiva. Este trabalho apresenta os resultados agregados, indicando que a matéria-prima apresentou valorização superior ao produto final em todos os elos da cadeia produtiva do leite. Em boa medida, isso foi reflexo do baixo crescimento da renda das famílias no período 2002-2005, o que dificultou a transmissão de preços, além da competição entre as empresas por participação de mercado. Especificamente no caso da indústria de laticínios, enquanto o conjunto de leite e derivados registrou alta de preços de 84,18% no período, o preço do leite ao produtor subiu 119%. Os produtos que mais perderam na relação de troca com o leite ao produtor foram: creme de leite, margarina, coalhadas e iogurtes. O leite em pó, foi o item menos afetado, mas ainda assim ficou 16,28 pontos percentuais aquém do leite ao produtor. Os atuais repasses de preços ao consumidor estão sendo suportados pelo crescimento da renda das famílias. O rendimento real médio no acumulado em 12 meses até maio em relação a 12 meses anteriores encontra-se crescendo 5,5%, apesar do fraco desempenho do mercado de trabalho. A massa real de salário, que corresponde ao produto do rendimento real médio e do total de ocupados, cresceu cerca de 8,3% no mesmo período, o que vem beneficiando o consumo de lácteos e pode contribuir para alguma recuperação de margem da indústria. Todavia, essa recuperação deverá ser atenuada pela competição existente entre as empresas, pelo forte poder de barganha dos varejistas e pela inelasticidade da oferta de leite como matéria-prima no curto prazo. * economistas e pesquisadores da Embrapa Gado de Leite; (1)[email protected]

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