CPT - Centro de Produções Técnicas

Envolto em dificuldades de mercado, que se somam à desconfiança após casos de adulteração, o setor leiteiro gaúcho tenta se recuperar. Indústria e produtores buscam alternativas e traçam estratégias para fazer de 2015 um ano de retomada. Tudo para minimizar prejuízos que ainda estão por vir: a estimativa é de que milhares de famílias podem deixar a atividade. A baixa remuneração é uma das razões que podem levar produtores a desistir. Em janeiro, o preço pago pelo litro atingiu o menor patamar em cinco anos no Estado: R$ 0,73 – 10% a menos em relação a 2014, em valores corrigidos. E o Conseleite projeta R$ 0,74 para fevereiro, cujos dados ainda são processados. O recuo também se refletiu nos supermercados, com o menor preço em cinco anos. A explicação para a desvalorização é consenso: a crise da cadeia gaúcha atingiu o fundo do poço no início de 2015. Há expectativa de recuperação no ano, mas a tarefa não será fácil. O setor, que já vinha cambaleando em função dos efeitos da Operação Leite Compen$ado, encontrou mais obstáculos, o mais recente deles a greve dos caminhoneiros, obrigando a jogar fora milhares de litros. Ao contrário do que costuma ocorrer, a retração na demanda devido às férias escolares não veio acompanhada do recuo na produção, já que o verão chuvoso favoreceu as pastagens. O resultado foi alta nos estoques e, com isso, queda nos preços. — Hoje, o consumidor é mais exigente. Então, pode ter havido retração no consumo (com a Operação Leite Compen$ado), inclusive em outros Estados, porque exportamos 60% da nossa produção – avalia o diretor-executivo do Instituto Gaúcho do Leite (IGL), Ardêmio Heineck. O descompasso entre o aumento da oferta e o consumo no país também é apontado como fator para a crise. Entre 2010 e 2013, a produção de leite gaúcha cresceu mais do que o dobro da brasileira. O salto foi de 24%, uma média de 8% ao ano — quatro vezes mais do que o aumento anual do consumo, estimado em 178 litros per capita por ano no país. Melhorias no horizonte Com a volta às aulas e a normalização do consumo, espera-se que o peço comece a reagir neste mês. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado (Sindilat-RS), Alexandre Guerra, a sinalização de melhora também vem do mercado externo, com alta de 25% na cotação do leite em pó. O dirigente diz que o desabastecimento provocado pela paralisação dos caminhoneiros também pode aumentar o preço do leite. Para o presidente da Comissão de Leite da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Jorge Rodrigues, a retomada do setor será impulsionada pelo mercado interno, pois a estiagem em Goiás e Minas Gerais — dois dos cinco maiores produtores — pode abrir espaço à produção gaúcha. Presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva pede que "cada um faça a sua parte". Mas a possibilidade de uma oitava fase da Leite Compen$ado, quando o setor ensaia uma recuperação, preocupa: — Se vier com estardalhaço, pode sepultar de vez a cadeia no Estado. À frente da operação deflagrada pelo Ministério Público Estadual em 2013 e cuja investigação aponta suposta adulteração de 100 milhões de litros em um ano, o promotor Mauro Rockenbach discorda: — Quem sepulta a cadeia são os fraudadores, agindo contra um setor altamente produtivo e importante. Não inventamos fraude, apenas defendemos os consumidores. Mapeamento, mais controle e fiscalização Censo, campanha publicitária, treinamento técnico, busca por novos mercados e criação de mecanismos para coibir fraudes. Estes são alguns exemplos de ações que estão no radar do Instituto Gaúcho do Leite (IGL) para contornar a crise vivenciada pelo setor. Formado por 35 entidades, o IGL pretende lançar até maio uma campanha para incentivar o consumo de leite e seus derivados. Para driblar a desconfiança do consumidor, a ideia é transformar a vigilância de órgãos como o Ministério Público — que deflagrou a Leite Compen$ado — em uma "oportunidade mercadológica", mostrando que o produto gaúcho é "o mais fiscalizado do país". — O controle deve ser permanente, assim como o produtor tem a obrigação de ordenhar as vacas todos os dias. Cada segmento tem de fazer a sua parte, aí sim teremos condições e segurança para buscar outros mercados – avalia Jorge Rodrigues, da Farsul. Neste mês, o IGL também deve concluir um levantamento socioeconômico da atividade leiteira. A formação de banco de dados, segundo o diretor-executivo do instituto, Ardêmio Heineck, é fundamental para melhorar a gestão da cadeia produtiva no Estado. Além da maior oferta de derivados lácteos, outra ação tida como prioritária é a abertura de novos mercados. Por isso, as entidades buscam agilizar o credenciamento de empresas gaúchas para exportar leite em pó à Rússia. O potencial de demanda do país europeu, que pode enviar comitiva ao Estado nos próximos meses, é estimado em 30 mil toneladas por mês. Também estão sendo articulados, por meio da Assembleia Legislativa e da Secretaria da Agricultura, projetos de lei que possam coibir a adulteração de leite no Estado. As propostas seriam voltadas para o transporte do leite e para a comercialização e penalização dos fraudadores da matéria-prima. Incerteza pode fazer até 30 mil famílias deixarem o setor Nos próximos cinco anos, até 30 mil famílias gaúchas poderão abandonar a atividade leiteira, projetam a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetag-RS) e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul). Boa parte, segundo presidente da Fetag-RS, Carlos Joel da Silva, produz menos de 50 litros por dia e mora em áreas de difícil acesso. Por tais razões, acabam encontrando cada vez mais dificuldades na hora de comercializar a matéria-prima. Entre esses produtores de leite, também estão os que eram vinculados a alguma das 15 empresas que fecharam as portas no Rio Grande do Sul nos últimos meses. A estimativa é de que cerca de 10 mil famílias ficaram sem receber pagamento das indústrias que decretaram falência no RS. — Toda a atividade tem suas crises e os que ficam pelo caminho. Mas vamos olhar para frente e trabalhar para perder o mínimo possível de produtores — ressalta Ardêmio Heineck, diretor-executivo do IGL. Presidente do sistema Ocergs/Sescoop, Vergilio Perius afirma que as cooperativas absorveram parte deste contingente, cumprindo com seu papel de promover a inclusão social. Desde dezembro, 3,7 mil produtores de leite se tornaram sócios de cooperativas. — O leite é a âncora do desenvolvimento da agricultura familiar do Estado. Se terminar o leite, termina tudo — observa Perius. Desestimulado pelos baixos preços, o produtor Paulo Stangherlin, 45 anos, de São Paulo das Missões, pensa em desistir da atividade depois de duas décadas de dedicação. Ele, que vem reduzindo a produção, recebe R$ 0,56 pelo litro, valor que considera inviável: — Não tem como sobreviver desse jeito. Nunca sobra nada. Tem exigência, mas não tem retorno, e a mão de obra é puxada. Não tem fim de semana nem feriado. Stangherlin administra a propriedade de 25 hectares com a ajuda da mulher, Vânia. Além de produzirem cerca de cem litros por dia, também plantam milho para silagem do gado e soja em uma área de oito hectares. Por enquanto, não têm planos de deixar o campo, mas, se a situação do leite não melhorar em um ano, o casal pretende investir só na agricultura. — Com esse problema da adulteração, temos pouca esperança de que as coisas possam melhorar. Antes, o Rio Grande era referência em qualidade. Hoje, há rejeição. E os produtores estão pagando por erros de freteiros e firmas. Qualidade e investimento garantem maior valorização Se há preocupação com desistência, também há quem persista com otimismo na atividade. Um exemplo é a família Siqueira, que produz leite há quase 20 anos em Boa Vista do Incra, no Noroeste. Há quatro anos, após cogitarem mudança para a cidade, os irmãos Altair, 23 anos, Ademir, 40, e Edivaldo, 26, inverteram a lógica predominante e apostaram mais em qualidade do que quantidade. — Passamos a cuidar mais da qualidade, pensando em quem vai consumir o produto – conta Altair. Incentivados pela Nestlé e pelos técnicos da Emater e da Embrapa, eles investiram em genética, pastagens e equipamentos para ordenha e armazenamento. O valor recebido pelo litro de leite em janeiro foi R$ 0,98 — 25% a mais do que a média calculada pelo Conseleite. Em 2014, a média ficou em R$ 1,07. Com 54 vacas em lactação, o volume captado por dia é de 1,08 mil litros. Apesar da boa rentabilidade, a alta nos custos preocupa. Altair observa que o produto deveria ser mais valorizado. É o que também afirma Gustavo Dal Maso, 35 anos, que herdou dos pais a vocação para a produção leiteira: — O preço não acompanha o mercado. Tudo é caro, e o nosso produto não sobe. Mas quem gosta do que faz, não abandona. Investindo constantemente em máquinas e infraestrutura, ele produz 800 litros por dia e tem 50 vacas. A produção é destinada à Nestlé, e o preço é de R$ 0,94 por litro — R$ 0,20 acima da projeção do Conseleite para fevereiro. — Quando o preço baixa, tem de produzir mais para compensar, pois há custos fixos. Corro atrás de qualidade. Bom é ver que o investimento faz com que, na hora difícil, minhas perdas sejam menores do que outros que aplicam menos. Com boa estrutura e qualidade, o preço é justo. Se pular de galho em galho, uma hora o galho quebra. É preciso cautela e trabalho. Não penso em desistir — ressalta Dal Maso.

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