CPT - Centro de Produções Técnicas

Contra a corrente de preços deprimidos do leite e da oferta superior à demanda no mercado internacional, as tradicionais empresas do setor de latícinios de Minas Gerais Itambé Alimentos e Tirolez driblaram as dificuldades e embarcaram remessas, neste mês, para clientes na África, abrindo janelas de exportação que haviam se fechado. O avanço no exterior, contudo, está longe de servir como válvula de ecape ou alternativa ao cenário também desafiador que a indústria de laticínios passou a enfrentar no Brasil. Com o freio imposto ao crescimento do país, o setor já observa queda no consumo de alguns produtos das linhas de leite e seus derivados, alimentos que são básicos na mesa das famílias, e por isso, em geral, consistem nos últimos itens a sofrer o baque de uma economia em retração. Entre a cruz e a espada, a indústria tenta se ajustar a cenários que não esperava ver nos últimos cinco anos, marcados por grandes investimentos nas fábricas, como ocorreu em Minas Gerais, maior produtor nacional de leite. Com aporte de recursos previsto em R$ 75 milhões neste ano, depois de ter aplicado R$ 70 milhões em 2014, a Itambé modernizou fábricas para obter ganhos de qualidade e produtividade e estabeleceu foco em redução de custos, fortalecendo, ainda, a sua equipe de vendas, informa o diretor de relações institucionais da companhia, Ricardo Cotta. “Estamos preparando a companhia para esse arrocho (nos gastos do consumidor e na economia) e um cenário de concorrência mais acirrada. Como o mercado como um todo não vai crescer, o trabalho é ampliar a nossa gama de clientes com novos produtos e conquistando novas praças”, afirma. Dados com os quais o executivo trabalha indicam que o consumo de lácteos no país parou de crescer e já há redução da demanda de segmentos como o do leite fermentado e do petit suisse, usado nos queijos. Outra medida é trabalhar muito e bem os lançamentos, para deslocar concorrentes. A empresa fez 20 dos 50 lançamentos previstos para 2015. Há 35 anos no ramo e pioneira em segmentos como o do queijo prato light e os cremes de ricota e Minas frescal, a indústria de laticínios Tirolez, dona de três fábricas em Minas, adota receituário semelhante, sem comprometer a inovação de produtos, que pode fazer a diferença na disputa pelo consumidor, segundo o sócio-proprietário da empresa mineira Cícero de Alencar Hegg. “Buscamos ganhos de produtividade com o envolvimento de todos os trabalhadores e estamos desenvolvendo um eforço grande na área comercial para atingir mais pontos de venda”, afirma. A empresa lançou em junho sua linha de produtos sem lactose, incluindo seis novos tipos de queijos. De acordo com Cícero Hegg, os ajustes vão depender do comportamento da massa de salários do brasileiro. “Mesmo quem pode consumir está segurando e cortando os custos ao máximo”, afirma. Pioneiro no Brasi, no desenvolvimento de produtos sem lactose e açúcar, o laticínio mineiro Verde Campo pretende driblar a crise financeira que atinge o país também com lançamentos, crescimento da produção e expansão para novos mercados. Alessandro Rios, diretor da companhia, que já atua no Sudeste e Sul, diz que a intenção é abrir mercados no Centro-Oeste e Nordeste. “Neste ano, vamos lançar queijos e iogurtes”, adianta o executivo. A estudante Eliane Caroline, 33, mãe de duas crianças, faz parte do grupo de consumidores de produtos inovadores. Ela diz que, depois de um tratamento, os filhos de 4 e 2 anos deixaram de ter alergia a produtos lácteos, mas, ainda assim, a família consome o leite sem lactose, reduzindo o uso dos produtos integrais. “Acho saudável, apesar de o preço ser um pouco mais alto”, comenta. <b>Freio na produção</b> As perspectivas para o mercado do leite em 2015 são de preços firmes para o produtor, porém em patamares mais baixos que no ano passado. Segundo a Scot Consultoria, especializada no agronegócio, no ano passado, o crescimento da produção brasileira foi da ordem de 7%, enquanto o consumo avançou perto de 2%. Para 2015, a consultoria estima um crescimento menor na produção, de 2,5%, ante uma estabilidade no consumo, na melhor hipótese. “Temos alguns investimentos da indústria em Minas e São Paulo, mas o ano deve ser de ajuste entre oferta e demanda. Apesar do dólar em alta, os preços do leite em pó despencaram no mercado externo e não incentivam as exportações”, diz Rafael de Lima Filho, analista da Scot Consultoria. Neste aspecto, o consumidor sai favorecido pela dificuldade que a indústria está encontrando para repassar aumentos de custos ao comerciante, e este, por sua vez, às gôndolas. A rigor, o leite e seus derivados estão ajudando a segurar a fúria do dragão da inflação. De janeiro a maio, os preços desse grupo de itens subiram, em média, 3,22% no varejo, perante uma variação geral do custo de vida de 5,34%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mercado internacional, as cotações do leite em pó, referência para o segmento, despecaram cerca de 50%, diante do valor de US$ 5 mil por tonelada comercializada no fim do ano passado. As exportações brasileiras caíram 49,3% em maio, frente a 2014. O diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios do Estado de Minas Gerais (Silemg), Celso Moreira, inclui um terceiro ingrediente no caldeirão de desafios ao setor, configurado pela penetração dos produtos importados, principalmente com origem na Argentina e no Uruguai. As importações subiram 37% no país durante os cinco primeiros meses deste ano. “É o que nos traz maiores problemas num cenário econômico desfavorável. O grande desafio da indústria, hoje, é buscar tecnologia, desenvolvimento de produtos e mercados”, afirma. <b>PERFIL DA PRODUÇÃO</b> * 34 bilhões de litros de leite: foi o recorde da produção anual brasileira de leite em 2014, atendida por mais de 500 mil produtores. * 180 litros por habitante: é o consumo per capita no Brasil, conforme o preconizado pela Organização Mundial da Saúde * 906 indústrias processadoras e 25 mil empregados diretos: é o número de fabricantes de Minas, responsáveis pelo processamento de 6,7 bilhões de litros previstos em 2015

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