CPT - Centro de Produções Técnicas

A rotina é a mesma todos os dias. Por volta das 6h Humberto Vieira recolhe vacas e bezerros e começa a retirar o leite. Ele enche três baldes e consegue extrair 30 litros por dia. Do assentamento Cachoeirinha, a 17 km de Glória, onde o pequeno produtor mora, o leite é recolhido e levado para uma fabriqueta de mozarela. A rotina é a mesma em quase quatro mil pequenas propriedades de Glória. Para estes e outros milhares de produtores sergipanos, o Governo do Estado vai ampliar parcerias para promover melhoramento genético do rebanho e está finalizando a distribuição de 750 toneladas de sementes milho, ações que podem alavancar a produção leiteira. Tudo isso porque o grão vira alimento para o gado, diminuindo custos com ração animal. Aliado a isso, a regularização de queijarias proporciona não só produção qualificada dos derivados do leite, como geração de emprego e renda para própria agricultura familiar. Depois de anunciar semana passada recorde na safra de milho em Sergipe, o IBGE estima que a produção de leite irá superar em 9,3% a de 2014, devendo chegar a 184 milhões de litros. É um montante produzido por cerca de 70% da população que atua nesta área, sejam pequenos, médios ou grandes produtores de leite. De acordo com o secretário estadual de Agricultura, Esmeraldo Leal, os frutos dos investimentos são demonstrados em dados. “Segundo um levantamento feito pela Emdagro [Empresa de Desenvolvimento Agropecuário], os laticínios da região têm capacidade instalada para processar 1,2milhão de litros de leite por dia. Estamos processando atualmente 640 mil litros de leite por dia. Ou seja, temos uma capacidade que pode ser dobrada. O processamento daqui é muito bom. É um sinal que estamos em um processo de boas perspectivas e de recuperação do produto. Estamos promovendo melhoramento da produção, aumentando-a, e nos recuperando dos períodos de seca. Temos, ainda, uma perspectiva de melhora de preço. A fase agora é de entressafra em alguns pontos. Com isso, o estado passa a ter aumento na produção e no preço, o que deve dar uma alavancada no setor”, comenta Esmeraldo. Uma das medidas do governo que proporciona melhoria da produção leiteira é a distribuição de sementes. Foram 750 toneladas distribuídas para milhares de produtores rurais. Através do cultivo do milho, os produtores de leite diminuem os gastos com ração animal, pois utilizam o resultado da colheita como suplementação alimentar, principalmente no período de seca. O processo de regularização de queijarias também é um ponto crucial para o crescimento e qualificação da produção de laticínios. De acordo com Esmeraldo Leal, existem mais de 140 pequenas queijarias, que funcionam de forma familiar e precária, que necessitam ser fiscalizadas e orientadas. “Houve um processo de inclusão de Sergipe ao Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa) e estamos em processo de inclusão no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi). Através deste último, há possibilidade de simplificar as exigências burocráticas sem diminuir a qualidade do produto. O intuito é não perder esse setor importante da economia, que gera emprego e renda da própria agricultura familiar”, explica. Existe ainda uma preocupação do Governo em viabilizar um convênio com associação de produtores para incluir outras raças na área de inseminação artificial. O intuito é priorizar e incluir raças que tenham qualidade de leite, desenvolvendo, assim, o melhoramento genético do rebanho. “Queremos qualidade no produto, e o impacto disso na economia é muito grande”, comenta, acrescentando que a Emdagro possui centros de inseminação artificial e treinamento para colaborar na produção leiteira da região. Humberto Vieira é um dos beneficiados com o recebimento de sementes de milho e inseminação artificial. Ele plantou cerca de quatro hectares de milho, que vai alimentar as vacas no período de estiagem. Com relação à reprodução de bezerros, o produtor rural conta que já tem animais provenientes de melhoramento genético. Ele possui um botijão de nitrogênio onde guarda sêmens de raça. “Se a gente trabalhasse mais com inseminação artificial, poderíamos melhorar a produção do leite. Iríamos conseguir 30 litros por vaca e isto iria não só ampliar a quantidade de leite, como melhorar a qualidade”, relata. Humberto é um dos pequenos produtores da região do Alto Sertão e consegue manter a casa e a família apenas com seis vacas. Ele começou a trabalhar no campo ainda criança, mas passou a ter seu próprio pedaço de terra e trabalhar por conta própria apenas há 10 anos, quando o assentamento foi criado. Erivan Aragão, conhecido como Nengo, também é um amante da produção leiteira. O médio produtor é responsável pela retirada de 1.200 litros por dia. Ele tem 120 cabeças e conta que começou com 20, há 25 anos. Sua renda mensal média é de R$ 35 mil bruto. Sua propriedade gera 10 empregos e o leite é destinado para a empresa de laticínios Latimilk. &quot;A vaca é economia perene, ou seja, todo dia gera renda e emprego. Além disso, este animal não entra de férias. Dá para tirar leite mais de uma vez por dia”, disse Erivan. Ele também comenta que a plantação de milho de sua propriedade é convertida em alimento para o gado. Para Nengo, a produção leiteira é a dedicação do povo do Alto Sertão. “Nossa riqueza é do leite. O pessoal aqui enxerga uma vaca como um membro da família. São 35 mil habitantes no município e um mercado consumidor de 70 mil pessoas”, ressalta. Outros setores beneficiados pela produção de leite são as empresas de laticínio. A Latimilk é uma delas. Ela deu seus primeiros passos há 15 anos, quando produzia de forma artesanal. Com o crescimento do mercado, a indústria resolveu se formalizar, ampliando o leque de produtos, atendendo as exigências relacionadas à fiscalização e produção de qualidade, e abrindo fronteiras de exportação. De acordo com o supervisor de qualidade da empresa, Wilame Martins, o faturamento gira, em média, entre R$ 800 mil a R$ 1 milhão por mês. São 35 empregos formais, e parceria direta com 600 pequenos, médios e grandes produtores de leite. Ele explica que o processo de melhoramento genético e mecanização implantado nas cadeias produtivas interfere diretamente na qualidade do produto da Latimilk. “A gente sempre estimula a higienização e as boas práticas de produção de leite. A tecnologia e a questão da ordenha mecânica trazem essa segurança”, comenta. <b>Base econômica da região</b> “O leite com certeza é base da economia do nosso município e de todo o Alto Sertão sergipano. Posso dizer que nossa cidade é pecuária e que aqui não existe êxodo rural. As pessoas saem da zona urbana para o campo. São mais de quatro mil produtores em torno do município, e hoje conseguimos gerar só em Glória, por semana, uma média de R$ 1 milhão e meio só na compra do leite. Com certeza o município produz o dobro do montante. A região cresce em uma proporção gigantesca se comparada a estados maiores”, destaca o secretário municipal de Agricultura, Dijalcir Ferreira de Aragão. O secretário Esmeraldo Leal diz que a região do Alto Sertão é uma das maiores bacias leiteiras do Brasil e se diferencia das demais pois sua produção circula internamente. “Aqui tem um aspecto muito diferente dos demais: a maioria da produção sai do pequeno produtor. Então o impacto na economia é extraordinário. E o que é interessante, é que a produção circula por aqui mesmo, diferentemente de outros lugares, que mantêm bacias através de computadores e que, em muitas ocasiões, destina o lucro para grandes capitais. Ou seja, temos um consumo interno muito forte e o impacto na economia é formidável”. A qualidade do rebanho leiteiro também é um reflexo da ausência de febre aftosa no estado. Segundo o coordenador regional do Alto e Médio Sertão da Emdagro, Ariosvaldo Ribeiro Bonfim, Sergipe está há 19 anos sem registro da doença. “Somos um dos casos privilegiados do Nordeste, assim como a Bahia, pois temos produtores conscientizados em saber a necessidade de vacinar os animais contra a febre”, destaca.

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