CPT - Centro de Produções Técnicas

Nas fazendas de Minas, a seca prolongada e a disparada dos preços dos insumos reduziram a produção de leite em 2,5% no ano passado, primeira retração desde a década de 1990. Nos dois primeiros meses do ano, a queda continuou e já atingiu 1,2%. O freio é uma resposta ao avanço de aproximadamente 30% no custo da produção, pressão que coincidiu com um período prolongado de baixa na remuneração – 2015 registrou a pior média de preços pagos pelo litro do leite dos últimos cinco anos, segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg). Do outro lado da porteira, nos supermercados das cidades, menos produtos lácteos de maior valor agregado estão entrando no carrinho do consumidor. Os reflexos da crise que fizeram as famílias ajustarem o orçamento chegam na ponta da cadeia, adiando os investimentos no setor produtivo. Para fazer frente ao revés no mercado interno e também de queda de preços no mundo, a receita no campo tem sido enxugar custos, conter os investimentos e tentar buscar soluções inovadoras para melhorar a gestão da produção. Em Santana de Pirapama, a 120 quilômetros de Belo Horizonte, pecuaristas da Região Central do estado foram apresentados na última sexta-feira ao 4 Milk, aplicativo que será lançado em maio e poderá ser baixado gratuitamente nas lojas App Store e Google Play, para uso em smartphones. pesar de à primeira vista a ferramenta parecer complexa, o apelo do produto desenvolvido pelo pecuarista Cláudio Notini é a simplicidade do manejo e suas múltiplas funções para ajudar o produtor a apurar a gestão do negócio, caminho para fechar as contas no azul. Antes de se tornar produtor de leite, Notini era empresário do setor de tecnologia da informação e usou sua expertise para desenvolver o aplicativo. As dificuldades que ele próprio encontrou ao longo do caminho para gerir o negócio foram o fermento. A proposta é que o produtor rural ganhe um aliado para enfrentar a crise, ao mesmo tempo em que aperfeiçoa o seu controle da propriedade. Na Fazenda Jardim, Claúdio Notini tem uma produção de aproximadamente 2,5 mil litros por dia. Ele recebe bonificação pela qualidade de seu produto, mas ainda assim diz que as margens apertaram tanto desde o ano passado, que praticamente estão encostando no custo da produção. “Com minha estrutura poderia alcançar 5 mil litros/dia, mas no momento vou manter o mesmo patamar e adiar o investimento”, avalia. A ferramenta que promete transformar a gestão chega em um momento em que os custos estão sendo acompanhados de perto. Segundo o diretor da Faemg, Rodrigo Alvim, uma conta prática da pecuária de leite foi derrubada no ano passado e este ano continua não fechando. “A cada litro de leite, o produtor deve ser capaz de comprar dois quilos de alimento. Hoje, com um litro de leite é possível comprar 1,5 quilo de alimento”, compara. No fim de 2015, o preço do milho praticamente dobrou, saltando de R$ 450 a tonelada, no primeiro semestre, para chegar a atingir perto de R$ 1 mil, o que tem feito a gestão rural passar por apuros. O aplicativo 4 Milk está sendo testado em um projeto-piloto por alguns associados da Cooperativa dos Produtores Rurais de Sete Lagoas (Coopersete). São 230 pecuaristas que respondem por uma captação de 120 mil litros diários de leite. O presidente da Coopersete, Marcelo Candiotto, é também produtor em Funilândia e diz que a ferramenta poderá ajudar a melhorar a gestão no campo. “Ela é muito simples de ser usada, permite o controle quase que absoluto da propriedade. Pode ser usada pelos técnicos e vaqueiros.” Marcelo avalia que o uso de tecnologias ainda está chegando devagar às propriedades produtoras de leite, mas que os benefícios podem vencer a resistência. “Hoje, o técnico perde aproximadamente duas horas do tempo de sua visita lançando dados. Pelo aplicativo, esse lançamento é feito diariamente, quase em tempo real, pelo próprio produtor”, diz Candiotto. O 4 Milk funciona no formato de lembretes e alertas. O produtor alimenta diariamente o aplicativo e tem toda a gestão da fazenda nas mãos, podendo dar prosseguimento aos trabalhos mesmo estando distante do campo. O aplicativo funciona também off-line. No sistema lembrete, o produtor será avisado diariamente de todas as tarefas que deve executar, como o manejo no caso da prenhez, retirada de animais para produção, tratamento do rebanho que atingiu peso ideal. Será lembrado sobre modificações na alimentação, enfim, todo um conjunto de atividades rotineiras. Já os alertas vão produzir análises sobre o rebanho, emitindo relatórios, por exemplo, sobre os animais que tiveram queda de produção. O aplicativo é conectado a redes sociais, e, por ele, o produtor se manterá conectado individualmente com outros pecuaristas ou a grupos. Poderá participar com facilidade de compras coletivas que barateiam o seu custo e terá uma plataforma para adquirir e vender animais ou embriões. “O aplicativo traz também plataformas que poderão ser usadas só pelo técnico, ou áreas de acesso ao vaqueiro, por exemplo”, explica Notini. “Ele é tipo um Facebook rural de muito fácil manejo. Nossa intenção é provocar uma transformação social no campo, queremos que ele seja usado gratuitamente”, observa. PÉ NO FREIO O mercado do leite enfrenta desafios também no setor externo e o momento é de alerta também do outro lado do oceano. Para se ter ideia, o leite em pó comercializado a US$ 4,5 mil a tonelada no fim de 2014, agora é vendido por US$ 1,9 mil. “O câmbio freou as importações e nesse sentido tem protegido o mercado interno”, avalia Celso Moreira, diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios (Silemg). Segundo ele, este ano a produção deve se manter estável no estado e os preços tendem a superar a média do ano anterior, empurrados pela estabilização na produção. Para o consumidor, o Silemg prevê alta de 10% nos valores no varejo. Rodrigo Alvim, diretor da Faemg, diz que este é um ano difícil de se fazer previsões, mas que o mercado sinaliza para mais um período desafiador, com pressão de alta em insumos, como o milho, e preços bem próximos ao custo da produção. “Devido à instabilidade, a recomendação é que o produtor não faça investimentos no curto prazo”, diz o executivo, que também é presidente da Comissão Nacional da Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O agronegócio foi o único setor da economia que fechou 2015 no azul, diante de uma queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas a balança comercial dos lácteos não favoreceu a conta: o défícit no ano passado foi de US$ 100 milhões de dólares.

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