CPT - Centro de Produções Técnicas

O mercado gaúcho de leite começa a ser redesenhado com a iminência de ter um novo líder no setor. A partir da compra de fábricas e marcas de outras empresas, a francesa Lactalis, um dos maiores grupos de lácteos do mundo, terá no Rio Grande do Sul seis unidades e capacidade instalada de 5,2 milhões de litros por dia. O volume equivale a quase 30% do potencial de todas as fábricas existentes no Estado, que têm capacidade para beneficiar 18 milhões de litros/dia. A confirmação dos negócios depende apenas do consentimento do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Como analistas avaliam que as transações serão aprovadas sem restrições, o grupo francês, que opera com marcas como Président, deve rivalizar com a Nestlé pela condição de maior captador de leite no país. O conglomerado suíço consumiu 2 bilhões de litros em 2013 — mas o fim da parceria com a neozelandesa Fonterra deve alterar os números neste ano. Com R$ 2,05 bilhões de investimento, a Lactalis arrematou no país, nas últimas semanas, 11 laticínios da BRF e quatro unidades da LBR. No Estado, a líder BRF está prestes a sair de campo no setor lácteo. Enquanto a Lactalis mantém silêncio sobre o negócio, começam a ser feitas projeções de como a entrada da multinacional mexe com o mercado gaúcho, que tem uma das maiores bacias leiteiras do país e está entre as que mais crescem, com produção diária de quase 11 milhões de litros. Para Osmar Redin, diretor da Associação Gaúcha de Laticínios e Laticinistas (AGL), a grande interrogação é sobre a política de relacionamento com os produtores. Uma dúvida é se vai oferecer ou não assistência técnica, como fazem as cooperativas. — Por enquanto, tudo é especulação, mas creio que seguirá o sistema da Nestlé, de trabalhar com produtores com maior volume de leite e diferencial de qualidade, enquanto os menores se acomodam em cooperativas — opina Redin. Presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês no Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang tem a mesma dúvida que Redin em relação à estratégia da Lactalis no Estado, embora avalie que o investimento do grupo europeu possa ser uma oportunidade para abrir novos mercados para os lácteos. — O que não pode é chegar e tirar os bons produtores das cooperativas — avalia Tang. Criador em Fazenda Vilanova, no Vale do Taquari, onde está uma das unidades adquiridas pela Lactalis, Celso Petter, 40 anos, acha que será positiva a entrada do grupo francês no Estado. O pecuarista tem 200 bovinos, entre os quais cem vacas em lactação, e avalia que esse movimento pode favorecer quem está na atividade. — A concorrência é sempre muito bem-vinda. Hoje, a situação está difícil. Tem produtor da região que não consegue receber o pagamento de algumas indústrias — diz Petter, dono de uma ordenha diária de 3,4 mil litros de leite. <b>Mais foco no mercado externo</b> A condição de multinacional e a característica de ser voltada à produção de derivados podem tornar a Lactalis uma oportunidade para as pretensões de desenvolvimento do setor leiteiro gaúcho. O perfil da empresa abre a possibilidade de maior produção de queijos, iogurtes, bebidas lácteas e novas linhas que o grupo francês poderá introduzir, considerados de maior valor em comparação com o leite de caixinha. — Precisamos trabalhar com toda a cadeia industrial na diversificação de produtos. Isso pode abrir novos mercados. Há grande espaço para crescer — diz o presidente da comissão do leite da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Jorge Rodrigues, explicando que isso também ajudaria a diminuir a capacidade ociosa dos laticínios gaúchos, acima de 30%. Osmar Redin, diretor da Associação Gaúcha de Laticínios e Laticinistas (AGL), considera positivo o fato de o grupo francês ser focado em lácteos, enquanto a BRF, por exemplo, tem o seu principal negócio em carnes — herdando suas divisões de leite em aquisições. A inserção internacional da empresa poderia favorecer uma futura aposta em exportações, mas também abrir espaço para mais importações quando os preços forem favoráveis, pondera Redin. Analista do setor de leite da Scot Consultoria, Rafael de Lima Filho afirma que a chegada da Lactalis mostra o potencial de crescimento do setor no Brasil nos próximos anos. Além da expansão do consumo no próprio mercado interno, o país tem capacidade para ajudar a atender grande parte do aumento previsto para a demanda mundial nos próximos anos. — O consumo mundial de lácteos está crescendo, e o Brasil é um dos poucos lugares do mundo que pode aumentar a oferta para atender o mercado. Hoje, exportamos apenas 0,5% do que produzimos— Rafael de Lima Filho, Analista de leite da Scot Consultoria <b>Os números da companhia</b> No mundo a Lactalis é um dos maiores grupos de lácteos no mundo, ao lado das também multinacionais Nestlé e Danone, com faturamento de 16 bilhões de euros (R$ 47,5 bilhões) registrados no ano passado. Com histórico de crescimento baseado principalmente na aquisição de outras empresas, o grupo francês soma mais de 60 mil empregados em 70 países, administrando 200 fábricas espalhadas pelo mundo. Entre os derivados do leite, os queijos são o principal negócio da empresa atualmente, respondendo por 34% do volume total de vendas. Uma das maiores aquisições feitas pela companhia foi a da italiana Parmalat, em 2011. No Brasil, a marca já era utilizada pela LBR e só agora passará às mãos do grupo francês. No Brasil e no Estado o grupo entrou no Brasil no ano passado, quando comprou a paulista Balkis, especializada em queijos. No mercado de leite, o ingresso começou a se consolidar no mês passado, quando pagou R$ 250 milhões por quatro unidades da LBR Lácteos (resultado da fusão da gaúcha Bom gosto com a LeitBom), que devido ao processo de recuperação judicial está vendendo ativos no país. Com a compra, a empresa poderá usar a marca Parmalat no Brasil. No Rio Grande do Sul, além da unidade da LBR em Fazenda Vilanova, o pacote inclui unidades no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. No início deste mês, comprou a divisão de lácteos da BRF por R$ 1,8 bilhão, incluindo o uso das marcas Batavo e Elegê.

Banner CHR Hansen 2020

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here