CPT - Centro de Produções Técnicas

Encimada com o título “Servidão linguística”, recentemente, esta tribuna livre do DM abrigou uma crônica, de nossa lavra, conquanto já repisada, sobre o uso e abuso do inglês no cotidiano de nossas vidas. Em verdade, onde quer que a vista alcance, e que nos enreda, dentro ou fora de casa, tudo está impregnado de expressões espúrias, a começar com as vulgares iniciais WC, pespegadas no portal dos banheiros, e que muita gente nem sabe o significado delas. Passando pelo PC do qual nossos infantes não mais desgrudam, ou perscrutando ruas e lojas, cartazes e anúncios, com sale, delivery, on-line e off, até o exit e push dos aeroportos – cite-se um mínimo de exemplos –, enfim, por todos os cantos, sofremos uma enxurrada massacrante e agressiva de termos desse sedutor e tirano idioma inglês, em pertinaz desacato ao judiado idioma pátrio. Diante da repercussão – aliás, sempre bem-vinda –, através de mensagens e ligações, umas a favor e outras contra, no tocante às críticas do autor submetidas ao judicioso julgamento dos leitores, retornamos à discussão aberta para atiçar a polêmica, fazendo soarem as trombetas da mais veemente repulsa verde-amarelo. Não sem decepção e amargura, voltamos a esconjurar a nossa subserviência cultural, ou seja, uma variante da servidão linguística que nos humilha, alvo das farpas da crônica anterior. Eis que, etimologicamente, no caso vertente, servidão e subserviência são sinonímias e justificam o brado de revolta e de alerta contra o desleixo contumaz à língua portuguesa tão enaltecida por Eça de Queiroz e Machado de Assis. Com o mote da primeira crônica, fazemos aqui nova investida com esta digressão ao assunto, não importa se repetitivo, porque “para saber acertar não há mais que um caminho, e para errar, infinitos”. Padre A. Vieira, In Sermões. Porém – haverá de perguntar o atento leitor –, o que tem a ver o título desta crônica “Os queijos de Ariano Suassuna” (famoso dramaturgo de “O Auto da Compadecida”), com a defesa da língua portuguesa tão avacalhada (sem trocadilho intencional) neste país de valores e tradições melancolicamente aviltados? Muito a propósito, e inacreditavelmente, responderemos. Pois não é que burocratas da Secretaria de Agricultura da Paraíba querem afrancesar os nomes dos produtos da fazenda da família Suassuna! Com efeito, para renovar o registro das marcas dos produtos, exigem os ciosos amanuenses de plantão a troca dos nomes dos derivados do leite de cabras, de raça genuinamente nordestina, com tempero de ervas da culinária cabocla, com certeza, referentes aos premiados “Queijo Arupiara”, “Queijo Cariri” e “Queijo Borborema”, de tradicional simbologia cultural da região, pela autoritária e alienígena denominação dos sofisticados fromages, tipo Camembert e Boursin ! Era o que faltava, pasmem, para configurar o mais alto grau do estágio de nossa subserviência cultural. Contudo, os parentes do imortal escritor, em homenagem ao defensor emérito da cultura regional, altivamente, recusam-se a afrancesar os rótulos dos seus apreciados queijos. A inusitada história foi contada pela Folha de São Paulo, neste último domingo de Carnaval, edição de 15/02/2015, no caderno Mercado A17. Para quem quiser conferir e acreditar! Não será, pois, ocioso nem molesto voltar, em réplica, com a aludida abordagem, ainda que possa ser entendida como mera “questiúncula vernácula”, seja para defender a aversão aos condenáveis modismos linguísticos, seja para corrigir, democraticamente, eventuais erros apontados pelas opiniões contrárias, posto que a todo cidadão livre e consciente é facultado o direito de questionar, divergir, discutir, enfim, protestar contra os agentes dessas iniquidades, quaisquer que sejam as mazelas e malfeitos que assolam com tamanha virulência e impunidade este sofrido país. É cediço que fatos notórios independem de prova, e que certas evidências acabam resvalando na sensaboria e na vulgaridade. Todavia, impõe-se reconhecer que a capital dos goianos extrapolou o bom senso e a moderação pois não escapou do mau vezo nacional de batizar, a torto e a direito, serviços, produtos e quejandos, com termos do idioma inglês. Para comprovar basta uma caminhada ao longo dos redutos das confecções, das casas de repasto e dos lançamentos de prédios comerciais. Um alerta: é preciso não esquecer de portar um bom dicionário de bolso. De inglês, off course … ! Por enquanto, ainda são dispensáveis o passaporte e o atestado de vacina. De fato, a impressão que dá é a de que estamos numa street do Texas, onde se avistam, por coincidência, aqueles chapéus atolados e cinturões faiscantes dos vaqueiros que nos remetem às nossas notórias origens rurais, tantas são as palavras e expressões, umas ociosas e outras ridículas, em substituição ao português, numa manjada tática publicitária para atrair incautos consumidores. Sobre ser um desaforo imerecido à nossa língua, trata-se de um rotundo engodo imaginar que a mágica de rotular bens e serviços em língua estrangeira confere mais status, credibilidade ou qualidade aos rejeitados e pobres produtos made in Brazil. Ressalve-se que ninguém é tão xenófobo ao ponto de negar a notável contribuição de outros idiomas influentes que, no passado, enriqueceram o nosso patrimônio vocabular. No Brasil, colônia de ultramar, o virtuoso padre Antonio Vieira e o satírico poeta Gregório de Matos tentaram resguardar e valorizar o tupi, aceito e respeitado pelos colonizadores, até que, no final do século XVII, por motivo político, teve o seu uso e ensino banido pelo astuto Marques de Pombal, certamente para fortalecer o domínio da Coroa. Apesar disso, as raízes da nacionalidade se firmaram sob os auspícios da nossa língua nativa em comunhão com o altivo e vigoroso português de Camões. Sem dúvida, o tupi inspirou os primeiros movimentos nacionalistas a partir do romantismo que rechaçava a invasão de estrangeirismos, o que, no entanto, não cessou, desgraçadamente, até hoje, agora sem nenhuma precisão, uma vez que a incorporação de neologismos e termos científicos são suficientes para abastecer o vocábulo com novas acepções, sem esse indigesto e bastardo contrabando do idioma anglo-saxão. Filólogos e outros doutos mestres tentam justificar que esse execrável neocolonialismo cultural é mais um reflexo do fenômeno da globalização. Não é. Em Portugal, prima-se pelo culto e respeito ao rico idioma herdado do latim. Na França também. Como se vê, neste país de imitações e modismos subservientes, já está consagrado falar e escrever em portuglês. Ora, se é para universalizar , ou, como queiram, bagunçar a língua portuguesa, façamos a opção menos servil pelo simpático portunhol. Pelo menos, temos mais afinidade histórica, etimológica e cultural, com o formoso idioma de Cervantes. Não desprezemos, pois, a língua que inspirou as joias literárias legadas por Florbela Espanca, Eça, Pessoa, Machado, Castro Alves, Euclides da Cunha, e outros grandes luminares da literatura portuguesa e brasileira. De toda sorte, nutrimos a esperança de que não estamos solitários, qual gato pingado, quixotescamente, investindo contra os moinhos da alienação nacional, nem malhamos em ferro frio, quando erguemos a voz para exaltar a nossa lusofonia e proclamar que sentimos orgulho daqueles desbravadores lusos que, com sua granítica têmpera, arrojo e intrepidez, nunca superados, aqui lançaram as sementes da sua raça e do seu idioma, criando e consolidando esta grande e generosa Nação, una e pacífica, cujas fronteiras alargaram, tenazmente, até os mais remotos rincões amazônicos. Quando a culpa é de todos, a culpa é de ninguém. Da forma pela qual uma grande parte dos brasileiros – lusófonos até prova em contrário – trata as nossas caras tradições e crenças, estamos a ver que a “última flor do Lácio” será cada vez mais inculta e menos bela. Quando não se fala e não se escreve bem o idioma dos nossos avoengos, e quando o inglês passa a ser dominador e o português, submisso, mais desastroso, sem dúvida, é tornar-se ignorante em duas línguas. O caminho certo não é outro senão o da educação e do civismo, ora faltantes, para serem repensados e resgatados, missão ingente e insone dos pais, dos mestres, da mídia, e dos governantes. Urge combater o licencioso e alienado modismo que renega a nacionalidade. De nada adianta suprir os carentes de pão e leite. Só o saber é o alimento perene da inteligência.

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