CPT - Centro de Produções Técnicas

A pesquisa agropecuária é dinâmica. A aplicabilidade dos processos desenvolvidos pela Embrapa Gado de Leite faz com que a Empresa seja constantemente demandada por várias instituições públicas e privadas. Demandas que geram ações de parceria, fortalecendo o elo com o produtor e, em muitos casos, dando uma dimensão social à pesquisa agropecuária cujos resultados surgem de maneira rápida e transformam a realidade de comunidades inteiras. Isto pode ser observado no agreste pernambucano onde é desenvolvido o Planipanema (Plano de revitalização da bacia leiteira do Vale do Ipanema). O Plano envolve sete municípios no entorno de Buíque, uma região pobre na divisa com o sertão, a 280 quilômetros de Recife. O projeto, idealizado para atender a Instrução Normativa 51 (IN 51), que entra em vigor nos estados do Nordeste a partir de 2007, propõem uma pequena revolução para pecuária de leite local. O Planipanema, financiado pelo Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), baseia-se em núcleos de produção comunitária. Foram criadas 40 associações (Associação Nuclear Comunitária de Produção – Ancop). Cada uma reunindo cerca de 40 produtores (num total de 1,5 mil famílias beneficiadas). As Ancops contaram, cada uma, com um galpão de 150 metros quadrados, sala de reunião, alojamento para um técnico agrícola, escritório com computador e internet, dois tanques de expansão com capacidade para mil e 4,5 mil litros de leite, um botijão de sêmen e uma motocicleta para o deslocamento do técnico agrícola, que prestará assistência às propriedades vinculadas à Associação. Os produtores que participam do programa recebem, cada um, seis novilhas mestiças (Gir X Holandês) inseminadas – de meio sangue a 7/8 – além das instalações mínimas necessárias para tocar a atividade. O rebanho foi adquirido em Minas Gerais e todos os animais são registrados. A expectativa é que a região venha a produzir cerca de 120 mil litros de leite por dia. Mas, antes disto, os municípios que integram a bacia do Rio Ipanema já se beneficiam. A construção da infra-estrutura necessária para o funcionamento das Ancops é feita com mão-de-obra local, aquecendo economia do lugar. Arquimedes Guedes Valença, prefeito de Buíque, um defensor aguerrido do Planipanema, diz que a situação do município está melhorando, “as pessoas já não pedem esmolas na rua”. O Plano prevê ainda a contratação de 53 técnicos agrícolas, recém-formados em escolas da região. Boa parte deles já está trabalhando, o que incrementa ainda mais a economia de uma região tão carente de empregos formais. Kit da Embrapa – Para que estes técnicos atuem de forma a adequar a produção de leite às regras da IN 51, a Embrapa Gado de Leite tem um papel fundamental. Os técnicos passam um mês no Campo Experimental da Embrapa, em Coronel Pacheco, onde complementam sua formação com palestras e atividades de campo. Nalytha Raphaely de Sá Azevedo entrou para o projeto em março deste ano e em julho participou do curso de formação. “Foi uma experiência maravilhosa, lá eu pude ver muitas coisas que não tive oportunidade de aprender na escola agrícola”, afirma. A Embrapa Gado de Leite não se limita à formação complementar dos técnicos. Os pesquisadores da Empresa desenvolvem um trabalho que visa mudar o perfil da qualidade do leite nas propriedades do Planipanema. “A qualidade ainda precisa ser melhorada para que o leite esteja de acordo com as regras da IN 51”, diz o pesquisador Guilherme Nunes de Souza. No intuito de atingir este objetivo, a Embrapa Gado de Leite está testando nas propriedades de Buíque e região um kit higiênico de ordenha manual. Além de demonstrar como funciona o kit, Souza realiza palestras sobre qualidade higiênica e instrui os técnicos a respeito dos procedimentos de coleta de amostras de leite para análises laboratoriais. “O rigor na coleta destas amostras é fundamental para validarmos o kit”, diz Souza. Juvenal de Faria, outro técnico agrícola envolvido no Planipanema, diz que a Embrapa os tem preparado para uma das missões mais importantes do projeto: mudar a cultura do produtor. “Às vezes temos que bater de frente com os produtores para fazer com que eles adotem os métodos de manejo que a Embrapa nos ensina”. Mário de Andrade Neto, um dos produtores do Planipanema, diz que, com todas as informações e facilidades que estão sendo disponibilizadas, o sucesso do projeto depende apenas dos produtores. O produtor não está isento de obrigações. Para participar do projeto, ele deve ter no mínimo cinco hectares de terra, ser agricultor familiar e possuir, no máximo, quatro módulos rurais (cada módulo na região equivale a 35 hectares). O Planipanema tem uma preocupação especial com a alimentação do gado na época da seca, um sério problema para a pecuária no agreste. Ao entrar no Plano, a propriedade precisava ter uma área de palma cultivada. Além disto, o produtor deve cultivar, no mínimo, um hectare de palma adensada. Os animais, criados em regime de semiconfinamento, se alimentam de palma e ração durante a seca. A palma adensada é capaz de produzir 55 mil folhas por hectare/ano (três vezes mais que a palma cultivada da forma comum), o que garante a alimentação em períodos de seca mais prolongados. Comercializar a produção é outra preocupação do Plano. Foram inaugurados dois laticínios a cerca de 120 quilômetros das cidades produtoras que irão garantir o mercado para o produto. Segundo o prefeito de Buíque, a região tem vocação para o leite. “O agreste pernambucano é responsável por 72% da produção do estado, o que o Planipanema pretende é intensificar essa vocação e dar condições para o trabalhador rural tocar sua vida sem ter que migrar para os centros urbanos”. A importância social do projeto já pode ser aferida. Desde sua instalação, seis filhos de produtores retornaram de São Paulo para ajudar a família a tocar a atividade. A experiência das Alagoas – Uma experiência semelhante já ocorre desde 1998 em Palmeira dos Índios, município alagoano que fica a 150 quilômetros de Maceió e serviu de inspiração para o Planipanema. Lá, 179 produtores se uniram em torno do projeto da Carpil (Cooperativa Agropecuária Regional de Palmeira dos Índios). Os produtores foram divididos em seis grupos, cada um constituindo um entreposto de recolhimento de leite, a Carpil Leite. O entreposto possui dois tanques de expansão comunitários de dois mil litros, kit inseminação, armazém para ração, escritório, laboratório para análise de água e acidez no leite, além de um técnico agrícola para prestar assistência aos produtores a ele vinculados. O projeto da Carpil contou com o acompanhamento da Embrapa Gado de Leite desde o primeiro momento. Os pesquisadores da instituição auxiliaram na definição do módulo empresarial mínimo que viabiliza a atividade leiteira. Vários pesquisadores da Embrapa Gado de Leite capacitaram técnicos e produtores em questões como manejo, alimentação, reprodução, qualidade do leite, sanidade preventiva, etc. Quando a IN 51 entrar em vigor, a Cooperativa já terá formado uma equipe técnica para monitorar a qualidade do leite na propriedade, além do armazenamento e transporte do produto. No início do projeto, cada produtor recebeu cinco vacas; condições para plantar um hectare de palma adensada, capim ou cana; capital de giro e medicamento para o gado. Luciano Monteiro da Silva, presidente da Carpil, diz que hoje existem produtores com 14 vacas e produção média de 100 litros/dia. Silva se orgulha do sucesso do projeto. “Antes de iniciarmos o trabalho, nenhum produtor cultivava palma adensada ou realizava duas ordenhas diárias. Hoje, além de adotar estas técnicas, muitos utilizam a inseminação artificial, a produção de silagem de milho ou sorgo se tornou uma prática comum e há uma consciência arraigada sobre a importância da qualidade do leite”. Além do mais, segundo ele, hoje os produtores contribuem com INSS e recolhem impostos. A Carpil tem uma produção diária de 12 mil litros e quer se expandir. Em 2007, a Cooperativa começará a processar leite. Está em fase de criação no município de Arapiraca um laticínio com capacidade de beneficiar 75 mil litros/dia. Para atender a esta demanda, terá início um novo projeto, envolvendo 1,5 mil produtores de 26 cidades alagoanas. Serão construídos 78 novos entrepostos, com tanques comunitários, cada um deles reunindo 35 propriedades num raio de cinco quilômetros. O laticínio vai operar a uma distância de no máximo 80 quilômetros dos entrepostos, com estrutura para coleta a granel. Para que projetos como o de Alagoas e Pernambuco alcancem êxito, além das informações tecnológicas fornecidas pela Embrapa Gado de Leite, é necessário o empenho dos produtores. E empenho não falta ao trabalhador rural nordestino. Caetano Nonato Cabral, cooperado da Carpil, é um exemplo. Um dos primeiros a ingressar no projeto, Cabral possuía três vacas e tirava 15 litros de leite dia. Hoje, seu rebanho conta com 20 animais e a produção está próxima dos 100 litros diários. A propriedade não descuida da alimentação do rebanho. A área de palma chega até quase a varanda da casa. Aqui, o leite foi capaz de reunir uma família dividida pela carência do agreste nordestino. Jailton Ferreira Cabral, de 25 anos, filho de Caetano teve que buscar emprego na colheita da cana, no interior paulista. Quando a pecuária de leite começou a apresentar resultados positivos, ele retornou para ajudar o pai. Jailton tem ainda dois irmãos em São Paulo, filhos que seu Caetano espera reunir em breve. Goiás – parcerias institucionais impulsionam o setor Regiões diferentes, problemas diferentes. Enquanto o Nordeste do País trabalha para incrementar uma pecuária de subsistência, no Centro-oeste, as ações da Embrapa Gado de Leite e instituições parceiras visam formar mão-de-obra. Segundo o secretário de Agricultura do Estado, Odilon Claro Lima, um dos gargalos do setor é a falta de qualificação profissional. Para fazer frente a este problema, será inaugurado ainda este ano o Centro Tecnológico do Leite (CTL), que visa capacitar profissionais para o processamento do leite. O CTL vai funcionar em São Luis de Montes Belos, município do oeste goiano, que polariza uma região com sete mil produtores. “As disciplinas irão abordar todas as fases do processamento do leite como a fabricação de doce, queijo, iogurte, creme, etc”, diz o diretor educacional da Universidade Estadual de Goiás, Rodrigo Medeiros da Silva. O tecnólogo em laticínios terá ainda em sua formação matérias relativas à inspeção, controle de qualidade, assessoria e administração. Goiás possui 600 laticínios, o que já justificaria um curso assim. “Mas a idéia é que o CTL atenda também demandas de outros estados”, afirma o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, Paulo do Carmo Martins. O CTL servirá de “laboratório” para o curso de tecnologia de laticínios, outra ação educacional que conta com a parceria da Embrapa Gado de Leite. De nível pós-médio, o curso terá 60 vagas em São Luis de Montes Belos e outras 30 em Córrego do Ouro, há duas horas dali. O objetivo é atender à demanda de produtores, filhos de produtores e funcionários das fazendas. João Jatobá, prefeito de Córrego do Ouro vê com esperança a criação deste curso. “Os produtores não enxergam a atividade de forma empresarial e sequer conhecem o custo de produção em suas fazendas, mas há uma grande vocação para a atividade no município”. Em 1993, Córrego do Ouro produzia quatro mil litros de leite/dia. Em 2005, no período da seca, a produção chegou 40 mil litros e há ainda muito espaço para crescer. “Mas para isto, precisamos investir em ações de educação como esta e a Embrapa Gado de Leite é muito importante neste processo”, diz Jatobá. O ciclo educacional será concluído com a entrada em funcionamento, em 2007, da pós-graduação em Bovinocultura de Leite, da UEG. Os módulos do curso serão ministrados por pesquisadores da Embrapa Gado de Leite e a expectativa é que a procura seja grande. Estas ações fazem parte do Arranjo Produtivo Lácteo, um trabalho desenvolvido para otimizar ainda mais a atividade no estado que é hoje o segundo maior produtor do País. Um setor que cresceu graças à mobilização de instituições em torno da cadeia produtiva. João Bosco Umbelino, presidente da Agência de Desenvolvimento Regional lembra que em meados dos anos 90 o setor passou a rever seus procedimentos. Este período coincide com um maior incremento das ações da Embrapa Gado de Leite no estado. Em 1994, Goiás produziu 800 milhões de litros de leite. A expectativa para 2006 é que este número chegue a 2,8 bilhões. Umbelino conta que o setor industrial goiano é um dos mais modernos do Brasil, “dos oito maiores laticínios, seis estão aqui”. A atividade é responsável por 220 mil empregos diretos e indiretos e todos os municípios goianos produzem leite. Um exemplo do que a parceria entre instituições sólidas pode fazer pela atividade.

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