CPT - Centro de Produções Técnicas

Quem observa o jeito agitado do advogado Osvaldo Martins de Barros Filho pode não imaginar que ele nasceu e viveu por seus 30 anos na pequena e pacata Alagoa (MG). Sorridente, ele anda rápido, gesticula seus discursos e cada história é contada sempre com grande entusiasmo. Mas sendo assim, também não é de se espantar que a ideia de vender queijo pela internet tenha saído da cabeça dele. Com um site e perfis em redes sociais, Osvaldinho – como é conhecido na Alagoa – distribui o parmesão artesanal produzido na cidade para todo o país e sua solução empreendedora tem salvado uma tradição centenária fadada a se perder escondida nas &quot;serras azuis&quot; do Sul de Minas. Osvaldinho entra no carro, abre a janela e sai dirigindo pela cidade de pouco mais de 2,7 mil habitantes. Cumprimenta a maioria dos moradores que encontra pelo caminho, falando nomes com a cumplicidade de quem conhece a família toda. Ele aponta para a Serra da Mantiqueira, onde Alagoa foi edificada a 1,1 mil metros de altura, e explica: ela é a responsável por dar o sabor único que somente o queijo alagoense tem. “Esse tipo de capim, natural, nessa altitude que nós estamos, o clima que nós estamos sentindo aqui, a água que os animais bebem, tudo isso interfere no sabor dando uma singularidade para o queijo”, reitera. Mas como um tesouro guardado a sete chaves, a serra também torna o produto quase inacessível. Na estrada que vem de Aiuruoca (MG) só passa quem tem coragem de encarar o chão de terra esburacado e suas inúmeras pedras. A principal, que vem de Itamonte (MG), serpenteia pelo desfiladeiro da Serra da Mantiqueira se revezando em asfalto e a terra remexida da obra que se arrasta por quase 10 anos da rodovia LMG-881. Na cidade, um ditado resume a jornada para Alagoa: “Quando chove, nem tatu de chuteira passa na estrada”. Mas sem a pedra no meio do caminho, não se descobrem novas rotas, e foi assim que a missão de “exportar” o queijo de Alagoa chegou a Osvaldinho. <b>Ideia de ‘doido’, uai</b> Essa história começa em meados de 2009, lá na venda do seu ‘Batistinha’, produtor de queijo de tempos antigos na Alagoa. Um dia ele veio desabafar com Osvaldinho que estava muito difícil vender o parmesão artesanal lá da cidade. A produção era cara e o frete serra abaixo, mais ainda. A maioria dos produtores estava deixando o queijo pela produção de leite, mais rentável. Osvaldinho andava meio acabrunhado. Havia perdido o pai não muitos anos antes. O direito – que por cinco anos enfrentou viagem de quatro horas diárias pra estudar em Caxambu (MG) – já não lhe dava mais prazer. Como bom alagoense, o parmesão da cidade era uma das coisas que Osvaldinho mais apreciava, e ao ouvir seu ‘Batistinha’, começou a pensar o que poderia fazer pra mudar tal realidade. A ideia, conta Osvaldinho, chegou a ele quase como que vinda direta do céu: “e se a gente vendesse pela internet e mandasse entregar pelos Correios? Assim seria possível mostrar o queijo para o país todo e sem pagar tanto para levá-lo pra outras terras.” Pra não dizer que o tiro foi dado no completo escuro, ele procurou o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para entender como é que funcionava esse tal de comércio eletrônico. “Aí me mandaram um monte de material, explicando o que era preciso pra começar. A técnica [do Sebrae] me deu muito apoio, apostou na ideia. E eu me animei e me preparei pra arriscar no negócio”, conta. <b>Alagoa vai para a web</b> Tudo começou com um blog. As peças de queijos ficavam disponíveis para venda sem grande esmero. Essa moderna estratégia já era coisa de se admirar na Alagoa. Pelos cálculos de Osvaldinho, internet à rádio chegou há pouco mais de cinco anos na cidade. “A cabo tem uns dois anos só. Sinal de celular, uns cinco anos também. Antes a comunicação era fazer uma visita pra contar o que houve (risos)”, completa. No ar em novembro, até o fim daquele ano Osvaldinho conseguiu vender umas oito peças. Mas logo ficou claro que de quatro em quatro queijos por mês, a galinha não ia encher o papo. “Aí, em janeiro de 2010, eu conheci o mestre queijeiro Bruno Cabral [especialista formado na Espanha que tem uma casa de queijos em São Paulo]. Quando ele provou meu queijo, ele disse: ‘Cara, seu queijo é muito bom. Para de chamar de queijo parmesão, esse é o queijo artesanal de Alagoa’.” E foi assim que o parmesão alagoense ganhou status de marca interestadual e se tornou o Queijo D’Alagoa. Osvaldinho começou firmando parcerias com algumas queijarias em outros estados, como São Paulo, e até no Distrito Federal. Os comerciantes e alguns poucos clientes depositavam o dinheiro, mandavam email, Osvaldinho confirmava o pagamento e colocava as peças no Correio. À medida que o parmesão alagoense ia se espalhando por terras cada vez mais distantes, Osvaldinho percebeu que tinha gente que gostava mesmo de queijo mineiro e não se importava de pagar pelo frete e esperar (até) 18 dias para receber a peça pelos Correios. E assim ele resolveu arriscar um pouco mais e profissionalizar o negócio. Em 2012, abriu a loja virtual que permitia pagamento até com cartão de crédito, agilizando o processo de vendas. Criou um logotipo e embalagens estilizadas: usou o &quot;A&quot; de Alagoa, os “furadinhos” do queijo parmesão e os contornos da antiga Estrada Real pela Mantiqueira que levam até a cidade. Daí pra frente, de mês a mês, cada vez mais peças de queijo “rolavam” serra abaixo. <b>Queijo da cidade</b> O muro simples e comprido esconde o laticínio próximo ao Rio Aiuruoca, onde se produz o parmesão de Alagoa há 35 anos. O proprietário é um dos poucos da cidade que mantêm o modo artesanal de fazer o queijo. É também um dos poucos fornecedores com quem Osvaldinho trabalha para distribuir o Queijo D’Alagoa. “Eu trabalho com poucos produtores, a peça grande eu pego com um, a pequena com outro, porque tem que ser o mesmo queijo o ano inteiro, a mesma cor, a mesma textura, o mesmo sabor. Se eu trabalhar com vários produtores, eu posso te mandar um queijo hoje e outro amanhã, você vai sentir diferença no sabor e aí você vai reclamar comigo que eu mandei um queijo diferente”, explica. Funcionário de longa data, seu Renê Pinto de Andrade – ou somente ‘sô Renê’ – de 59 anos, vai tirando uma a uma as peças de queijo empilhadas no fundo do pequeno galpão. Apesar da timidez, não se incomoda em parar o serviço e explicar como funciona o laticínio. Os galões de leite chegam bem cedo e são logo despejados no tacho, onde são fervidos até chegarem aos 30º C. Aí se coloca o coalho e o fermento e quando a fervura chega nos 45º C, o soro separa do leite, ficando a massa do queijo embaixo e o líquido em cima. Daí o queijo é prensado para tomar a típica forma circular e segue para a salmoura, onde permanece por três dias (alguns produtores mantêm apenas por um dia no sal). No fundo do local, os queijos são enfileirados em uma câmara fria, onde são mantidos em um ponto fresco até serem vendidos. Mas o segredo saboroso do parmesão é a maturação. As bactérias naturais do leite cru vão tornando cada vez mais forte o gosto do queijo. Este também é o segredo para que o parmesão alagoense pegue estrada pelos Correios até seus compradores. O longo caminho só melhora o gosto para seus apreciadores. Com a criação da marca, Osvaldinho passou a fornecer cinco tipos de queijo: peças pequenas e frescas, com poucos dias de maturação, de até 1 kg; peças grandes e frescas, que variam de 4,5 kg a 5,5 kg; a peça pequena de 1 kg curada, que recebeu o nome de “Faixa Dourada”, com maturação de no mínimo 40 dias; o &quot;Mantiqueira Real&quot;, queijo médio de até 3 kg e maturado por no mínimo 60 dias com azeite de oliva; e o &quot;Queijo do Coronel&quot;, maturado no mínimo por seis meses. Os dois últimos têm produção limitada – o primeiro, 20 peças a cada dois meses e o segundo, 20 peças a cada seis meses – e são vendidos somente por encomenda. O mais barato compra-se por R$ 32,50. E assim, Osvaldinho conseguiu aquecer as vendas e incentivar os pequenos produtores da cidade a manter a tradição. “É uma produção de pequena escala, feita com alguns produtores de forma artesanal e vai direto para o consumidor”, explica Osvaldinho. Para ele, o negócio deu certo porque comprar queijo artesanal é que nem comprar vinho chique: quem gosta de verdade não mede esforços pra conhecer deliciosa iguaria. “Eu vendo o queijo que eu como e eu vendo queijo para quem gosta de queijo. Já mandei de norte a sul do país, já mandei para Antônio Prado (considerada a cidade mais italiana do país, no RS), já mandei pra Tefé, no Amazonas, que leva 18 dias pra chegar de barco lá. Tenho clientes em Sergipe, em Salvador (BA), Feira de Santana… no Nordeste vende muito”, enumera ele. “Já mandei peças até pra Manaus. Foi a primeira vez que mandei queijo por avião!” <b>Cenário alagoense</b> Mas se a ideia de vender queijo pela web, de uma cidade que até pouco tempo não tinha acesso à internet, foi pra lá de inusitada, a forma como Osvaldinho faz isso já é um caso à parte. Ele defende que o queijo parmesão de Alagoa não é só algo a ser apreciado pelo paladar. Toda a história de sua produção e tudo que o cerca faz parte da mágica de exclusiva iguaria. E todas essas características são usadas para a publicidade do produto. Osvaldinho passa o olhar pela serra e vê as araucárias que só a Mantiqueira tem. Vê os bezerros fazendo graça na beira da estrada de terra, atrapalhando o fluir dos (poucos) automóveis que passam pelo local. Vê a casa da roça com sua porteira desbotada pelo tempo. Todo esse universo rural é registrado por um celular para cair direto na rede de apreciadores que moram tão distantes dessa realidade diária. É assim que Osvaldinho consegue fazer a divulgação do queijo sem gastar quase nada. Usa os perfis da marca nas redes sociais para vender este universo mineiro. Com o típico bom humor interiorano, acrescenta às belas paisagens da Mantiqueira o que ele chama de frases “queijísticas”: “Com o passar dos queijos, os anos vão ficando melhores”, e “A vida é que nem queijo: quanto mais maturada, melhor”. E ainda tem mais: “Dinheiro não compra felicidade, mas compra queijo, que é ‘igualzim’”. Um dos maiores ibopes ele conquistou com o famoso trocadilho ‘Keep calm e eat cheese’ [da frase inglesa ‘Keep calm and carry on’]. “Teve mais de 50 compartilhamentos essa foto”, destaca. Sua outra estratégia pra conseguir aumentar as vendas é distribuir o queijo para colunistas gastronômicos de jornais renomados e blogueiros de culinária. Mandando queijo pra tudo quanto é lado, Osvaldinho já conquistou até clientela famosa. Ele conta com verdadeira empolgação do comentário de Lulu Santos em um dos posts que publicou. “Uma vez eu postei uma foto de um cavalo perto de uma moita, aí ele comentou brincando: o que você vai fazer na moita?”. Cita ainda que não deixa de mandar queijos para o jornalista e apresentador Marcelo Tas toda vez que vai em São Paulo. Famosos ou não, os apreciadores seguem as postagens do queijo e acabam desenvolvendo amizade com Osvaldinho. Na página, não faltam publicações fotográficas de clientes mostrando o queijo que acaba de chegar pelo Correio. E de tanto ver, vem a vontade de conhecer. Mexe e vira os clientes resolvem se aventurar na Mantiqueira e visitar a pequena Alagoa. E assim, as cinco pousadas na cidade recebem gente de São Paulo, Rio de Janeiro, Piracicaba, Curitiba, e por aí vai… <b>Horizonte alagoense</b> Osvaldinho abre a porta de sua casa, nos fundos da mãe, para apresentar a empresa. Do quarto do filho único, ele tira a caixa de plástico onde guarda todo o material que usa pra embalar os queijos: o plástico da embalagem a vácuo, as fitas e etiquetas coloridas, durex, tesoura. Passa o dia na prefeitura, onde trabalha atualmente, e a noite no computador vendendo queijo. Costuma dormir lá por 1h e já está de pé às 6h15. “Quando fala Queijo D’Alagoa, o povo acha que é uma empresa. Mas na verdade sou eu sozinho. Eu pego o queijo, lavo o queijo, rotulo o queijo, empacoto, posto o queijo, eu que faço a propaganda na internet e faço contato com os clientes”, conta mais com um tom de orgulho do que achando ruim. O dinheiro arrecadado com a venda de cada peça, ele usa para pagar o produtor – “que eu pago ‘de acordo’, pra valorizar a produção dos queijeiros ” – e cobrir as despesas com manutenção do site, a conta corrente jurídica, impostos, embalagem. Usa as caixas que sobram nos supermercados para economizar no envio dos queijos. No fim das contas, faz porque gosta de Alagoa e do queijo alagoense. Tomou como incumbência de vida preservar o parmesão. Recentemente conseguiu financiar a casa própria e construir a nova moradia. Se sobrar um pouco de dinheiro, ainda pretende fazer um cantinho comercial para receber os clientes que se aventurarem por Alagoa. Mas na conta final, só tem o que agradecer. Já recebeu dois prêmios pela iniciativa empreendedora [Fundação Dom Cabral e MG Turismo]. Em 2012, o modo artesanal de fazer queijo parmesão em Alagoa foi certificado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA). As vendas só aumentam. O empresário calcula atualmente uma média de 30 a 40 peças pequenas vendidas no varejo e umas 100 peças pequenas por mês para revendedores – sem contar as encomendas especiais e as que leva para vender em eventos de vinhos e gastronomia. Osvaldinho é filho de família alagoense criado em Alagoa, mas casou com uma paulista e talvez daí tenha herdado um toque paulistano no sotaque caipira e a urgência no jeito de falar. Vibra ao descrever cada imagem que reflita o modo de viver de Alagoa e não cansa de repetir o quanto ama a cidade. &quot;Não saio daqui de jeito nenhum.&quot;

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