CPT - Centro de Produções Técnicas

A falta de água no Rio Jaguari pode resultar em consideráveis prejuízos para a indústria do Sul de Minas. Sem chuva, a Agência Nacional das Águas (ANA) discute com os usuários a necessidade de diminuir a captação para contribuir com o sistema Cantareira, destinado ao fornecimento para a Grande São Paulo. A proposta é que seja estabelecida restrição de até 30% em relação ao volume captado. As empresas tentam negociar percentuais menores para o corte, tendo como argumento os efeitos danosos para a produção industrial e agrícola da região. O impacto do corte será sentido na divisa de Minas com São Paulo, em Extrema e cidades próximas. O Rio Jaguari nasce em terras mineiras (Sapucaí-Mirim, Camanducaia e Itapeva), servindo para abastecer também o estado vizinho. O comitê da bacia hidrográfica já se reuniu cinco vezes para tratar do tema. Segundo o gerente de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Wágner Soares Costa, a proposta da agência reguladora é diminuir o percentual de captação de acordo com o nível do rio, chegando a 30% no volume mais crítico. Os cortes também seriam válidos para residências. Pela proposta, o corte será linear, com o mesmo percentual válido para todos os usuários. O setor industrial não concorda. Segundo Costa, isso penaliza alguns setores, mais dependentes da água na produção. A Fiemg e os demais usuários apresentaram contraproposta pedindo que fosse estabelecida a mesma redução para São Paulo. “Esse corte tem que ter isonomia entre estados”, afirma. Hoje, o comitê se reuniria novamente, mas o encontro foi cancelado. A informação extraoficial é que a indústria paulista não teria aceitado reduzir a captação em 30%. Segundo a ANA, a proposta de até 30% ainda não é definitiva. A agência abriu espaço para receber contribuições dos interessados. Mais de 100 usuários apresentaram outras propostas. Nos próximos dias, novas reuniões serão marcadas para apresentá-las. A expectativa é que ainda neste mês seja definida uma posição. <b>Postos de trabalho</b> Segundo o gerente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Extrema, Itapeva e Camanducaia (Simec), José Maria do Couto, a necessidade de colaborar com a redução do consumo está definida, mas o percentual sugerido pela agência reguladora está acima do ideal. “30% é muito. Obriga muitas empresas a reduzir a produção e, obviamente, a diminuir o quadro de funcionários”, afirma. O ideal, segundo ele, seria redução de 10%. Apenas a indústria metalúrgica da região tem 6 mil trabalhadores. Entre as empresas com maior captação de água, estão Bauducco, Kopenhagen e Laticínio Serra Dourada. Esta última usa água para higienização do processo produtivo. Segundo o diretor do laticínio, Leandro Rangel, para cada litro de leite, são gastos três de água. Por mês, a empresa consome 90 mil litros de água, sendo 20% originados de um poço artesiano e o restante, da distribuidora. “A redução da outorga tem um impacto absurdo”, destaca. Rangel diz que qualquer percentual de corte é prejudicial para a produção. “Se eu diminuir captação, reduzo a produção e, com certeza, tem demissão”, afirma. E os impactos podem extrapolar os empregos diretos. O gerente de Meio Ambiente da Fiemg, Wágner Soares Costa, observa que, no caso do laticínio, o problema contamina os fornecedores. A redução na produção de queijo e outros derivados do leite acarreta a menor captação de leite e, com isso, os produtores rurais são afetados. O problema do Rio Jaguari envolve Minas Gerais e São Paulo. Devido à crise hídrica, o estado vizinho já vinha reduzindo a vazão para garantir o abastecimento humano, contrariando as ordens do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O rio responde por mais de 60% do abastecimento do sistema Cantareira. <b>Empresas tentam otimizar produção</b> A seca que provoca a queda da produção no campo e a explosão dos preços dos hortifrutigranjeiros também atinge a indústria. Empresas de diferentes ramos industriais e que dependem da água para a produção já estão em estado de alerta, adotando medidas para otimizar ou reduzir o consumo de recursos hídricos. A expectativa dessas fábricas é que a chuva, que começou a atingir ontem a capital e outras regiões do estado, se intensifique nos próximos dias, reabastecendo o lençol freático, recuperando o nível dos rios e reservatórios e retomando a normalidade dos sistemas de abastecimento das cidades. Caso isso não aconteça, em pouco tempo, a produção industrial ficará comprometida. “As nossas indústrias estão em estado de alerta”, afirma o presidente da União das Empresas do Distrito Industrial de Uberlândia (Uned), José Humberto Resende de Miranda, ao fazer referência à estiagem prolongada, que afetou o sistema de abastecimento e também atinge o setor industrial na cidade do Triângulo Mineiro. Segundo ele, no distrito industrial de Uberlândia, existem cerca de 50 fábricas que dependem da água na manutenção dos seus processos de produção, incluindo indústrias de alimentos, limpeza e outras. Todas elas já adotam medidas para a economia e otimização do consumo da água, com o chamado reúso do recurso, fazendo, por exemplo, o reaproveitamento na limpeza. Resende de Miranda cita a Souza Cruz, que faz o reúso da água a partir do tratamento do esgoto. “Na Souza Cruz, não existe mais saída de esgoto. Todos os efluentes são tratados e reaproveitados”, assegura. O tratamento de efluentes é uma das alternativas adotadas pelas fábricas para otimizar o uso. O presidente da Uned informa que as indústrias da cidade que possuem poços tubulares foram orientadas a priorizar a utilização da água subterrânea captada por elas, a fim de aliviar para o sistema de abastecimento da cidade, que enfrenta problemas de escassez. <b>DEMORA</b> Contudo, ele ressalta que, mesmo com todas providências tomadas para economizar e otimizar o uso da água, as indústrias correm risco de ter problemas mais sérios, caso o início do período chuvoso demore ainda mais. “A nossa recomendação é para que as indústrias otimizem ao máximo o uso. Mas, se não chover nos próximos dias e a situação (dos reservatórios e mananciais) não for normalizada logo, vamos enfrentar a falta d’ água”, afirma José Humberto Resende Costa, lembrando que o atraso na chegada das chuvas pode reduzir também o nível do lençol freático, atingindo as empresas que consomem água de poços tubulares. <b>Estratégias ao longo do São Francisco</b> Na Região Central, mesmo com o volume da represa de Três Marias próximo ao considerado morto, a Votorantim Metais ainda não sofreu impactos pela estiagem do Rio São Francisco. A empresa tem estudado formas de manter a produção normalmente com menor captação de água. Em nota, informa que “nos últimos quatro anos, em função de processos de evolução de sua gestão hídrica, a unidade já reduziu em 36% o volume de água captado no rio”. Preocupação semelhante tem a Cedro Têxtil, empresa com fábrica em Pirapora, no Norte de Minas. A cidade é a primeira depois da usina de Três Marias com dependência da água do São Francisco. A empresa tem desenvolvido ações para melhor uso dos recursos. Segundo o gerente de Meio Ambiente e Qualidade da Cedro Têxtil, Márcio Alvarenga, com as medidas adotadas nos últimos anos, a empresa reduziu o consumo de 115 para 45 litros de água por quilo de tecido. “As ações implementadas estão nos mantendo em funcionamento. Não tivemos que paralisar nenhuma atividade por falta d’água”, afirma. A escassez de recursos hídricos também é preocupação para a indústria de cerveja, já que 90% da composição do produto é água. A Ambev, que fica em Juatuba, na Grande BH, informou que já adota medidas para a otimização e redução do consumo de água. “A Ambev tem o compromisso de buscar sempre a diminuição dos índices de consumo de água, não só em Juatuba, mas em todas as cidades em que atuamos.” De 2002 a 2013, a Ambev diminuiu em 38% o uso do recurso em suas unidades.

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