CPT - Centro de Produções Técnicas

Minas Gerais, responsável por quase 1/3 do leite produzido no país (cerca de sete bilhões de litros/ano), convive com os extremos da pecuária nacional. Enquanto algumas regiões possuem índices de excelência no setor, como o sul do estado, Triângulo Mineiro e Alto Parnaíba; outras, como o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha, têm as piores produtividades nacionais. No Norte de Minas, com produção anual de 255 milhões de litros ano, a produção por vaca/ano é de 812 litros (segundo dados do IBGE, a mesorregião que apresenta o melhor índice foi e centro do Paraná, com uma produtividade média de 2.900 litros de leite por vaca/ano). No Vale do Jequitinhonha, a produtividade é ainda pior: 417 litros por vaca/ano. Números tão aquém do razoável têm sua razão principal no clima. Tanto o Norte de Minas Gerais quanto o Vale do Jequitinhonha fazem parte do “polígono da seca” e estão localizados numa das áreas mais pobres do Brasil. A média de precipitação é de 900 mm e as chuvas estão concentradas em cinco meses do ano. Mas a carência de chuva, por si só, não é suficiente para justificar índices de produtividade tão baixos. Em um trabalho iniciado em 2004, o então pesquisador da Embrapa Gado de Leite, José Ladeira da Costa, constatou que apenas 1/5 dos produtores locais aponta a escassez de chuva como o maior problema do setor. Outros problemas indicados por eles são as limitações do mercado e a comercialização do produto (16,5%); falta de apoio e políticas públicas (4,3%), dificuldade de acesso e transporte do leite (9,6%), infra-estrutura inadequada (7,8%), mão-de-obra pouco qualificada (14%) e desconhecimento de novas tecnologias (4,3%). A mão-de-obra desqualificada e a desinformação a respeito de tecnologias representam quase o mesmo percentual da importância que os produtores dão à seca. Se fazer chover não está ao alcance das habilidades humanas, trabalhar com os outros problemas é perfeitamente factível. Foi isso que levou o pesquisador a idealizar o projeto Procriar – Aprimoramento da pecuária de leite nas regiões do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha. O projeto, conduzido pela Embrapa e a Emater-MG, conta com recursos do Ministério da Ciência e Tecnologia, através da Finep e do Ministério do Desenvolvimento Social. Segundo Ladeira “o objetivo geral do Procriar é disponibilizar conhecimentos, tecnologias e metodologias de produção de forragens, manejo do rebanho e gestão da propriedade leiteira que contribuam para o aumento da produção e de animais de qualidade”. Como conseqüência, o projeto visa melhorar a renda do pecuarista familiar nas regiões. O projeto já provoca uma pequena revolução nas localidades onde atua. Seu principal fundamento é subsidiar a transferência de tecnologia. Para isso, foram identificadas unidades demonstrativas de produção de leite entre as propriedades locais, abrangendo uma área de 79 municípios. Técnicos da Emater e pesquisadores da Embrapa utilizam essas propriedades na realização de palestras e dias de campo, onde são tratados os assuntos de maior interesse dos produtores. Irrigação X seca – “A receptividade dos produtores é surpreendente”, diz Luiz Aroldo Almeida, técnico da Emater e um dos coordenadores do projeto. “No Norte de Minas, por exemplo, nosso objetivo era atender 12 produtores com unidades demonstrativas. Mas apenas um dos nossos técnicos já acompanha 22 fazendas, na região de Janaúba”. Entre esses produtores, está Judite Ferraz, que tem uma fazenda de 60 hectares em Porteirinha, a 40 km de Janaúba. A cidade produz cerca de 70 mil litros de leite/dia e já enfrentou momentos de dificuldade com a estiagem. O técnico da Emater, Rossini Leão, que acompanha a propriedade de Judite, fala sobre um desses momentos: “no ano passado, só na região de Porteirinha, morreram de fome devido à seca cinco mil cabeças de gado”. Judite, que produz 150 litros de leite por dia (60 vacas, sendo 15 em lactação) é um exemplo de excelência em Porteirinha e teve sua fazenda selecionada como unidade demonstrativa. Ela conta que já teve que vender vacas boas para que elas não morressem de fome. Há algum tempo, com a orientação da Emater, ela adquiriu a prática de organizar toda a produção em fichas e suas vacas passaram a ser inseminadas artificialmente. A produtora cuida da propriedade junto com o filho. A produção é transformada em Queijo Minas, vendido em outros estados. O negócio tem dado tão certo que Judite passou a comprar leite de alguns produtores vizinhos para atender a demanda. E exige qualidade desses produtores. A alimentação no período seco é uma preocupação constante. Para driblar o problema, Judite está investindo na cana-de-açúcar. Um hectare de cana foi plantado na propriedade. A cana será irrigada, para isso, ela furou um poço artesiano e comprou uma bomba que já está pronta para ser usada. A mistura de cana-de-açúcar com uréia é uma das tecnologias que tem sido bastante disseminada na região. Além da orientação técnica a respeito da mistura, os produtores estão recebendo mudas para o plantio. Em 2005, foram plantadas 16 variedades de cana numa área pertencente à Universidade de Montes Claros (Unimontes), em Janaúba. Em setembro do ano passado ocorreu o primeiro corte e foram distribuídas 10 toneladas de mudas em 22 propriedades de cinco municípios. “A partir de julho, os produtores já terão a forrageira para alimentar seu rebanho”, diz a agrônoma da Emater, Lize de Moraes. Lize trabalha com o Procriar na região de Janaúba e acompanha a área plantada com cana na estação da Unimontes. Há experimentos de cana irrigada e de sequeiro. As variedades que melhor se adaptarem à região terão suas mudas distribuídas entre os produtores. “Iremos privilegiar as pequenas propriedades com até dez hectares e produzam cerca de 50 litros de leite por dia”, afirma a agrônoma. “Nosso principal objetivo é manter os animais vivos durante a seca.” A cana irrigada apresenta um crescimento 40% maior do que a cana de sequeiro. Quando a irrigação na propriedade de Judite começar a funcionar, a produção de queijo crescerá na seca. Janaúba fica a leste do Rio São Francisco, a cerca de 60 quilômetros da atuação de um dos maiores projetos de irrigação do Brasil – a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco), uma companhia que prova que, com irrigação, o semi-árido brasileiro é capaz de se tornar um dos maiores pólos agrícolas do país. No lado oeste do São Francisco, bem à margem do rio, está Januária, cidade conhecida pela excelência de sua cachaça, mas onde a pecuária de leite não se estabeleceu de forma efetiva. Fora do alcance da Codevasf e numa das regiões mais quentes do Vale, produzir leite é complicado. O secretário de Agricultura do município, Eduardo Pimenta, aponta outro complicador: “não há laticínio na região para absorver a produção”. Mesmo assim, é possível encontrar quem trabalhe com leite de forma rentável em Januária. Um exemplo é Eduardo de Alkimin. Ele possui 11 hectares de milho e pastagem irrigada (tifton e capim elefante) e dois hectares irrigados de cana. Apesar do calor, que chega fácil aos 40º C, cria vacas holandesas e girolandas em regime de semiconfinamento. Alkimin está começando a introduzir o cruzamento de Holandês e Jersey no seu rebanho. Para melhorar sua lucratividade, o produtor optou pelo parto estacionário, com vacas parindo de maio a dezembro. A propriedade produz 600 litros de leite/dia (10% produção de Januária). Alkimin industrializa e vende a produção no próprio município. Circuito Procriar Se é desgastante a lida com o gado no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha, o trabalho de profissionais da Emater e da Embrapa envolvidos com o projeto Procriar não é diferente. Em duas semanas do mês de maio, esses profissionais percorreram seis mil quilômetros para levar informações técnicas ao produtor. Trata-se do Primeiro Circuito Procriar, uma maratona de palestras, que visitou as cidades de Araçuaí, Bocaiúva, Icaraí de Minas, Janaúba, Januária, Pedra Azul, Salinas e Santo Antônio do Jacinto. De aspectos do gerenciamento das propriedades à qualidade do leite, foram abordados 20 temas nas palestras. Icaraí de Minas, município de 13 mil habitantes, quase na divisa de Minas Gerais com a Bahia, reuniu 300 produtores em um desses eventos. A região sofre com sete meses de seca por ano. Mas o procriar tem demonstrado que, com informação, é possível ter produtividade, qualidade e lucratividade na fazenda. E a informação está chegando com o Procriar. Onias Guedes, técnico da Emater que coordena o projeto em Icaraí de Minas diz que o programa está mudando a consciência do pecuarista. “Os produtores estão se programando para melhorar o gado, usando a inseminação artificial, o intervalo entre partos está diminuindo e a mortalidade de bezerros deixou de ser um problema”, garante Guedes. “Onde estamos observando os melhores resultados é na qualidade do leite”. O pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rodolpho de Almeida Torres, atual coordenador do Procriar, diz que “o produtor quer dar uma resposta ao programa. “Os índices melhoram significativamente”, constata Torres. Um exemplo é o produtor José Soares, cujo índice mastite de sua propriedade caiu 40% desde que ingressou no programa. “Também melhoramos a qualidade do nosso leite e a produtividade por vaca”. Soares tem 45 vacas em lactação, alimenta o rebanho com silagem de sorgo na seca e tira quase 500 litros de leite por dia. Além das vacas de leite, cujo grau de sangue tende para o zebu, ele explora a pecuária de corte com o gado Nelore. “Mas para pagar as contas, a gente confia mesmo é no leite”, conclui.

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