CPT - Centro de Produções Técnicas

No início deste ano o Brasil atingiu grandes recordes em dólar na exportação de carne bovina. Em razão disso, cresceu no imaginário das pessoas a idéia de que, decorridos pouco mais de quatro meses do início oficial da febre aftosa, nada perturbou a continuidade da comercialização de nossos produtos para a Comunidade Européia. Nada mais falso. Na verdade, janeiro foi o último mês de embarque dos contratos firmados anteriormente ao embargo. Daí para frente, apenas os Estados fora da proibição puderam continuar fechando novos contratos. A questão é saber até que ponto eles conseguem suprir a pauta ao nível anterior, face às condições do tamanho do rebanho e a disponibilidade de frigoríficos em suas regiões. Tarefa difícil. Com isto, devemos esperar por uma redução no volume exportado. O aumento do dólar deverá manter o valor das exportações próximo ao nosso desempenho recente. O fato é que, com relação ao embargo, imposto por 52 países, a situação continua na mesma. O comissariado europeu esteve, neste semestre, vistoriando as medidas adotadas pelo governo e voltou perplexo. Por exemplo, o rebanho infectado do Paraná, de mais de 3.000 cabeças, ainda não tinha sido eliminado porque uma liminar na Justiça impedia que esta ação tivesse seu curso. Em tempo: o vírus pode se propagar pelo ar em distâncias superiores a 30 km. Portanto, rebanho vivo e infectado: vírus em propagação. O governo brasileiro foi leniente com produtores do Mato Grosso do Sul e Paraná e está todo enrolado para explicar como entrou nesta e como vai sair. Na questão da oferta deve-se lembrar que as exportações de carne no Brasil chegaram perto da soja, o que é bastante expressivo. No ranking do mercado de carne bovina o Brasil responde por 1.600 (em mil toneladas – 2004), seguido pela Austrália, com 1.300; e Canadá, com 560. Portanto, o país mais próximo de levar nossa liderança é a Austrália. O complexo de carnes no Brasil responde por cerca de US$ 3,5 bilhões ou quase 4% de nossa pauta de exportações. Nossos principais mercados compradores são a União Européia e Ásia (sem Oriente Médio). Cerca de 20% da pauta, ou seja, muita coisa está em jogo para ficarmos “brincando” de liminares. Mas há outras questões relevantes. Durante o desenrolar da crise foram fechados cerca de 16 frigoríficos e dispensados milhares de trabalhadores. Assistimos a um vigoroso e gradual cenário de desinvestimento no setor. Quando o mercado voltar a operar, assistiremos a um aumento real no preço da arroba do boi, que será acrescido de um “plus” de reinvestimento, tudo isto a ser pago pelo consumidor brasileiro, pois o mercado lá fora está fixado em dólar e os preços não vão se alterar muito. Temos, no Brasil, a tendência de discutir muito mais as circunstâncias do que as causas efetivas. Até aqui, debateu-se muito pouco as questões voltadas aos procedimentos que nos permitissem a formar rebanhos sadios. Por exemplo, que programas no mundo obtiveram sucesso na erradicação desta epidemia? O que o governo pode realizar para erradicar a febre aftosa? Qual a contribuição das associações de classe, grandes produtores e frigoríficos? Não há dúvida de que o caminho da prevenção é o mais eficaz, porém quem se habilita a liderá-lo? *Carlos Eduardo Stempniewski é mestre em administração pela FGV/SP, especialista em Avaliação de Performance Financeira e Econômica nas áreas de Saúde e Agronegócio. Atua como Consultor e Coordenador dos cursos de Administração, Sistemas de Informação e Turismo das Faculdades Integradas Rio Branco

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