CPT - Centro de Produções Técnicas

Com previsão de girar R$ 15 bilhões e processar 7,2 bilhões de litros de leite em 2007, o setor de laticínios mineiro passa pela sua melhor fase nos últimos anos, com recuperação de preços e anúncios de novos investimentos. O presidende do Sindicato da Indústria de Laticínios do Estado de Minas Gerais (Silemg), Celso Costa Moreira, afirmou em entrevista ao jornal Diário do Comércio/MG que acredita que o setor é uma das principais vocações da economia do Estado, que continuará como o maior produtor de leite do país por muito tempo. Segundo ele, além do aumento da demanda interna por leite, decorrente do incremento da renda no país, os grandes produtores internacionais diminuíram sua produção este ano, fazendo com que a cotação do leite no mercado internacional disparasse. Com isso, os produtores mineiros conseguiram recuperar margens. Com a Avipal anunciando uma planta em Juiz de Fora e a Parmalat vindo para Frutal, temos sinais de que uma nova onda de investimentos no setor pode estar começando no Estado? Ela já está acontecendo, sem dúvida. A Avipal anunciou investimentos em uma planta em Juiz de Fora. A Parmalat, que volta industrializando em Minas depois do problema financeiro e da saída do mercado. Ela voltou a atuar em outros estados e agora efetivamente em Minas. Ela arrendou uma indústria em Frutal, no Triângulo Mineiro e está voltando a atuar aqui. Além disso, outras empresas importantes têm anunciado investimentos também na área de lácteos. Começando pela Danone, no município de Poços de Caldas, que está anunciando um crescimento de produção, ampliando sua indústria para isso e anunciando investimentos para crescer de 650 mil litros de produção diária para 1 milhão de litros. A Embaré saiu de 500 mil litros e veio para 1 milhão de litros também e ainda está com uma reforma na indústria para poder captar mais. A Itambé fez um investimento importante no Triângulo Mineiro em Uberlândia, uma planta nova, e vem crescendo sua captação. Ou seja, o cenário hoje é um cenário de investimento e de estímulo à produção de leite no Estado. A indústria quer aproveitar a boa fase. Quanto o preço do leite já subiu este ano? O leite, tanto em nível do consumidor quanto do produtor, já subiu este ano, mais ou menos, 40%. É uma situação um pouco diferente do que ocorreu em 2006, quando os preços do leite, de toda a cadeia, ficaram deprimidos. Razão pela qual, no meu entendimento, desestimulou a produção primária, no campo, e nesse ano houve uma queda no período de entressafra um pouco maior do que seria o normal. Então na verdade, nós tivemos algumas situações paralelas que alteraram o preço do leite. Em primeiro lugar, essa produção na entressafra deste ano, um pouco menor que na entressafra anterior. Em segundo lugar, o crescimento da renda e uma demanda maior por produtos lácteos no mercado interno. E em terceiro lugar, o mercado internacional demandando mais por leite. O Brasil iniciou a partir de 2004 um trabalho de exportador de leite, revertendo uma quadro anterior, quando era um importante importador do produto no cenário internacional. Começamos essa exportação e, especificamente em 2007, os grandes players internacionais do leite – Nova Zelândia, Austrália, a Argentina e a União Européia (UE) -, cada um por motivos diversos, tiveram redução da produção. Na Oceania foi uma condição climática que causou a redução significativa da produção, com uma oferta menor pro mercado internacional. Na UE, com a retirada dos subsídios, que também acabou reduzindo a produção e diminuindo os estoques tanto para o mercado interno quanto externo. E a Argentina também viveu uma situação climática que acabou afetando a produção. Então foi esse conjunto de fatores que acabou motivando a alta de preço no mercado externo e também no interno, que é o cenário que temos hoje. Temos também o período de safra que se avizinha, a partir de outubro, que coincide com o período de chuvas e a partir daí hoje é difícil estimar o que vai acontecer para o futuro. Exatamente pelos dois novos fatores que entraram em cena: o aumento de renda do mercado interno e o mercado internacional demandando mais leite, principalmente leite em pó. Além da queda de produção, a demanda lá fora está aumentando? A demanda aumentou exatamente pela queda de produção. Para se ter um parâmetro, o preço histórico do leite em pó girou ao longo dos últimos 10 anos, em torno de US$ 1,9 mil e US$ 2,3 mil a tonelada. Neste ano ele já superou a casa dos US$ 5 mil dólares. Ou seja, independente do câmbio hoje, que é desfavorável para os exportadores de diversos produtos e matérias primas, no caso específico do leite, o preço no mercado internacional compensou a defasagem cambial e a demanda do mercado internacional ainda está muito aquecida. Minas está aproveitando o bom momento no cenário externo para aumentar exportações? Minas, no ano passado, exportou US$ 38 milhões em laticínios. Até junho deste ano, Minas já exportou US$ 30 milhões. Então, num cenário de produção menor e a gente começando a ter novas demandas do mercado externo, mesmo que o percentual de leite destinado ao mercado internacional, que no ano passado foi de 4% no país, pareça ser um número aparentemente baixo, qualquer quantidade destinada para o mercado externo é um ganho, por causa dessa tendência de alta. É um cenário absolutamente condizente com a oferta e procura. Qual é o crescimento previsto para a produção de leite no Estado? A estimativa é de que ela cresça um pouco, entre 2% e 3% e Minas deve fechar 2007 com uma produção de 7,2 bilhões de litros. Minas é o primeiro produtor de leite do país. Mas como o Estado se posiciona em termos de crescimento no cenário nacional? No país, de um modo geral, todos os estados brasileiros tê estimulado muito a atividade leiteira. Todos, indistintamente. Os estados do Sul têm tido um crescimento percentual um pouco maior que o de Minas e o mesmo é válido para os do Centro-Oeste. Goiás tem uma produção significativa e é o segundo produtor do país. Mas a vocação para a pecuária leiteira de Minas tem falado mais alto desde o início da nossa história. Nós devemos produzir, até o final deste ano, 7,2 bilhões de litros de leite e Goiás deve chegar a algo em torno de 2,5 bilhões, então estamos uma grande margem à frente e eu creio que isso não se modifique no curto prazo. Nós temos essa vocação. E o próprio governo mineiro tem tido um cuidado muito grande para manter as nossas vocações econômicas muito bem azeitadas. A tributação do setor em Minas está no mesmo nível que outros estados? No ano passado, foi aprovada uma lei pela Assembléia Legislativa ratificando alguns ganhos tributários para o setor, o que nos deu a capacidade de competir com as legislações de outros estados que estão bastante preocupados com o crescimento da atividade leiteira e, em função disso, dão um tratamento tributário condizente com a atividade. Nós entendemos que estávamos com uma tributação em Minas compatível com legislações de outros estados e com uma carga tributária dentro da nossa capacidade de pagamento. Então no ano passado foi promulgada essa lei 16.304, que na verdade ratificava uma legislação de 2001, que permitiu que a indústria e a produção mineira se mantivessem em crescimento, o que culminou com os investimentos que estamos vendo agora. O que ocorreu é que agora, em julho foi publicada uma nova regulamentação, que alterou a relação tributária que antes estava vigente, acabando com aquela situação favorável. Mas nós temos uma linha de diálogo com o governo através da Secretaria de Estado da Fazenda (SEF) e sempre fomos ouvidos nas nossas ponderações, nas nossas reivindicações, demonstrando a realidade hoje com o que acontece na comparação com outras legislações e da necessidade da manutenção de uma carga tributária ajustada à nossa capacidade de pagamento. Mantendo-se o decreto, como está redigido, entendemos que é um pé no freio para o setor no Estado. Mas temos certeza, pelas experiências anteriores, que o governo está sempre aberto ao diálogo e que nós vamos ter oportunidades de demonstrar aos técnicos do Estado os malefícios que a legislação traria para toda a cadeia leiteira se continuar como está hoje posicionada. Como está a relação entre produtor e indústria? O produtor sempre viu a indústria como uma parceira que de certa forma não valorizava a produção primária. Com a própria evolução do setor e a demonstração da indústria que ela também quer e precisa que o produtor cresça, porque estamos todos na mesma cadeia, hoje nós temos uma relação bastante saudável, principalmente entre as entidades dos produtores rurais. Eles, na minha percepção, enxergam a indústria de laticínios hoje como parceiros efetivos da atividade. Felizmente superou-se a fase em que a indústria realmente não era uma parceira efetiva e hoje eles entendem bem, inclusive, a situação de mercado. Na alta, no crescimento da demanda, o produtor recebe uma melhor remuneração pelo leite, mas ele entende também que quando há um excesso de oferta e o mercado por si só determina que o preço caia. Hoje ele assimila essa queda do preço como uma circunstância de mercado e não como uma imposição da indústria ou oportunismo dos setores industriais. Isso está muito evidente e muito claro. O setor, especialmente os pequenos produtores, ainda é pouco qualificado? Com certeza esse processo de qualificação é um processo que teve seu início já a alguns anos e jamais terá fim, porque as tecnologias e as necessidades de mudança acontecem constantemente, como em qualquer setor. Mas hoje o produtor primário cresceu em qualificação e principalmente pelo estímulo que as grandes indústrias e grandes empresas levaram a ele. Do ponto de vista legal, a instrução normativa 51 do Ministério da Agricultura, que exige alguns parâmetros de qualidade do leite fez com que as indústrias investissem na qualificação dos produtores e isso efetivamente vem acontecendo, felizmente, em uma velocidade maior do que a gente poderia prever, mesmo com muito otimismo. Vem evoluindo significativamente. O que não quer dizer que não haja uma necessidade ainda muito grande de manutenção de investimentos nessa área que deve perdurar pra sempre. Como está hoje o nível de endividamento do produtor mineiro? Sobre a questão do endividamento nós não temos dados concretos. O que eu posso dizer é que hoje, na produção de leite, existe um entusiasmo grande por parte dos produtores. E esse entusiasmo requer alguns cuidados, porque os mercados são muito difíceis de se projetar no médio e longo prazo. Então hoje tem uma tendência, pelo entusiasmo que a produção leiteira traz nesse momento, uma vontade de produzir mais, que pode levar o produtor a se endividar, para realizar investimentos, e se por ventura não houver essa estabilidade que todos desejamos que exista, ele pode ter dificuldades para cumprir seus compromisso no futuro. Isso preocupa. Nesse caso, felizmente, a indústria tem mais os pés no chão, pela própria formação do empresário e pelas dificuldades vividas ao longo da trajetória da empresa, eles têm mais o pé no chão. Fonte: Diário do Comércio/MG

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