CPT - Centro de Produções Técnicas

Identificar matrizes com alto potencial genético para a produção de leite a pasto e de forma natural, sem o uso de hormônios, promovendo assim o melhoramento genético da raça Gir Leiteiro no Brasil Central. Esse é o principal objetivo da 1ª Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto de Zebu Leiteiro, aberta pela Embrapa Cerrados (Planaltina, DF) no dia 9 de dezembro no Centro de Tecnologias em Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL), no Gama (DF). Durante o evento, que teve a presença de produtores, pesquisadores e técnicos, também foi lançada a segunda edição da prova. Realizada pela Unidade em parceria com a Associação dos Criadores de Zebu do Planalto (ACZP), a prova tem o apoio técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Gir Leiteiro(ABCGIL), da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), do Hospital Veterinário da Universidade de Brasília e das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU). O secretário-adjunto de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do Distrito Federal, Sebastião Márcio de Andrade, representando o secretário José Guilherme Leal, disse que o sonho de um sistema de produção de leite que dependa o mínimo possível de insumos no inverno e apresente a maior eficiência pode ser alcançado com trabalhos como a prova. “Até hoje, esbarramos na questão da qualidade dos animais. Ao ver uma iniciativa que permite identificar indivíduos que de fato apresentam desempenho acima da média na produção de leite a pasto e que isso começa a ser disponibilizado aos criadores para uso direto ou em cruzamentos, podemos pensar em avanço para alcançar esse sonho”, apostou, acrescentando que outras ações também são fundamentais, como gestão e manejo adequado das pastagens. “A genética é o primeiro passo dessa longa caminhada”, completou. Andrade parabenizou a ACZP por ter escolhido a Embrapa como parceira da prova: “Desde a sua criação, a Embrapa foi e vai continuar sendo o parceiro preferencial de quem quer trabalhar com o desenvolvimento da agropecuária brasileira”. O chefe-geral da Embrapa Cerrados, José Roberto Peres, destacou a importância da parceria público-privada e agradeceu ao apoio de todos os parceiros para a realização da prova. Ele falou sobre a pretensão da Unidade de tornar o CTZL o maior centro de referência em reprodução animal do Brasil, realizando transferência de tecnologias, treinamentos e cursos de capacitação. “Nosso grande enfoque é melhoria dos padrões genéticos dos rebanhos, e o principal mecanismo é o teste de desempenho. Mas para a genética ser responsiva, estamos introduzindo as melhores práticas de produção forrageira”. Outro objetivo do CTZL é a obtenção de um sistema de produção de zebu leiteiro a pasto em ambiente agroambiental sustentável. “Para produzir leite limpo num ambiente limpo, temos que quantificar os indicadores de prestação de serviços ambientais. Nossa equipe multidisciplinar está medindo a qualidade e a produção de água, por exemplo. A intenção é que os produtores rurais também sejam produtores de água dentro de sistemas sustentáveis”, explicou, citando ainda os trabalhos de recuperação de matas ciliares e de galeria, de avaliação da qualidade do solo com indicadores biológicos e de mensuração do balanço de carbono no sistema. Já o presidente da ACZP, José Renato Lopes, afirmou que a entidade participa da prova com muita honra. “Tenho certeza de que vamos colher excelentes frutos. Vamos seguir em frente, tocar novos projetos e fazer com que a parceria seja muito profícua para todos”. <b>Experiência</b> Convidado a falar sobre a experiência de mais de 30 anos como criador de Gir Leiteiro e a importância das provas funcionais para a seleção do zebu leiteiro, o produtor rural Paulo Horta apresentou um histórico sobre a criação das raças zebuínas leiteiras no Brasil e as características das principais provas realizadas no País: controle leiteiro, torneio leiteiro, torneio leiteiro natural, teste de progênie, Moet (sigla para multiple ovulation embryo transfer) e prova de produção de leite a pasto. “Temos que buscar uma seleção funcional, com produtividade rentável e boa relação custo/benefício. O zebu leiteiro deve ser manejado como zebuíno, e não como Holandês. Precisamos interpretar as raças a partir de suas características”, apontou. Horta também salientou que os aspectos zootécnicos dos animais devem ser mais valorizados que os puramente morfológicos. O controle leiteiro, que viabiliza a seleção genética, pode ser particular (iniciado na década de 1930) ou oficial (a partir dos anos 1940). Por contemplar diferentes manejos, desde a seleção a pasto até o confinamento, os dados de produção obtidos nessa modalidade são restritos. Já o torneio leiteiro é considerado um evento de grande repercussão publicitária, com produção de leite em grande ascensão devido ao uso de fármacos. No torneio leiteiro natural, por sua vez, os animais permanecem em ambiente padronizado e são submetidos a regime alimentar próximo da realidade brasileira (pasto, silagem ou feno e concentrado 3/1), sem o uso de fármacos. São premiadas a maior quantidade de leite e a maior qualidade (% de gordura e proteína e menor número de células somáticas). Realizado na raça Gir há 30 anos, o teste de progênie, segundo o produtor, é a melhor forma de identificar e selecionar touros geneticamente superiores para produção, conformação e manejo. Cada bateria tem duração de sete anos, atualmente contando com 615 rebanhos colaboradores. O teste contempla o pedigree de diferentes gerações e mede a capacidade prevista de transmissão (PTA) para leite, indicador que pode apresentar valores distintos entre touros irmãos, filhos dos mesmos pais. “Aí está a importância do teste de progênie. Se não testar, medir e comprovar (a PTA), o produtor estará jogando dinheiro fora”, alertou. Com o aumento do número de animais inscritos nos testes de progênie, houve a necessidade de se fazer a pré-seleção de touros para eliminar os indivíduos inadequados. Tem sido dada preferência a animais de pedigree aberto para evitar a endogamia. A pré-seleção testa temperamento, ganho de peso médio diário, escore corporal no início e no final da prova, além de contemplar exames andrológicos e coletas de sêmen com testes de congelamento, entre outros. Muito utilizado na raça Guzerá, o Moet é uma ferramenta que permite produzir famílias de irmãos completos e meios-irmãos de ambos os lados por meio da múltipla ovulação e transferência de embriões. Os touros jovens são avaliados pela produção de leite das irmãs. O Moet é menos acurado que o teste de progênie, mas tem maior intensidade e rapidez de seleção, avaliando mais precocemente os tourinhos. Com duração de três anos, serve como filtro para o teste de progênie. Por fim, a prova de produção de leite a pasto, como a realizada pela Embrapa Cerrados e parceiros, visa identificar genética para produção de leite em vacas sob manejo adequado à realidade brasileira, com unificação de local, temporalidade (animais de mesma faixa etária) e manejo. A produção de leite é avaliada em toda a lactação de novilhas, bem como a qualidade do leite produzido, sendo que outras avaliações técnicas são desejáveis. “Juntamente com o teste de progênie, a prova de produção de leite a pasto é uma ferramenta confiável na identificação de genética favorável à sustentabilidade leiteira nos trópicos brasileiros. Multiplicada, vai permitir melhor confiabilidade de seleção”, concluiu Horta, acrescentando que a prova permite a adição de diversos procedimentos de pesquisa tecnológicas ainda inexistentes na seleção zebuína, além de poder ser associada ao Moet para servir de filtro visando ao teste de progênie. Outras vantagens da prova de produção de leite a pasto apontadas pelo produtor são a difusão científica por meio de visitas tecnológicas e dias de campo e a inclusão social. “A Embrapa pode repassar os tourinhos que forem produzidos aos pequenos produtores. Há um vastíssimo campo de inclusão social”, finalizou. <b>Primeira prova</b> Nesta primeira edição da Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto de Zebu Leiteiro, foram inscritas 20 novilhas Gir Leiteiro de primeira cria, oriundas de 12 criatórios do Distrito Federal e Entorno. Elas foram inseminadas ou cobertas entre janeiro e fevereiro de 2015 nas fazendas de origem e chegaram ao CTZL em setembro, quando passaram por um período de 60 dias em adaptação e tiveram a gestação acompanhada pelos técnicos. Os partos começaram em outubro e devem ocorrer até o final deste ano. Até o momento, 12 novilhas já pariram. Durante 305 dias de lactação em pasto rotacionado com suplementação concentrada, os animais serão classificados nos atributos: produção de leite, reprodução, gordura, contagem de células somáticas, proteína e persistência de lactação. A prova também servirá para avaliar o custo e a rentabilidade da produção de leite no bioma Cerrado. Os resultados serão divulgados em dezembro de 2016, segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, Carlos Frederico Martins, coordenador da prova. De acordo com o regulamento, será formado um Banco Genético da Raça Zebuína com Aptidão Leiteira com as cinco melhores fêmeas classificadas na prova. As novilhas serão submetidas à aspiração folicular e coleta de embriões, e os produtos podem ser compartilhados igualmente entre o proprietário e a Embrapa, com a assinatura de contrato de parceria pecuária para pesquisa e multiplicação de matrizes bovinas da raça Gir Leiteiro a ser celebrado após a prova, caso seja interesse do criador. Os participantes da abertura da prova puderam observar os animais integrantes da prova nos campos experimentais do CTZL. A pesquisadora Isabel Ferreira e o analista Álvaro da Fonseca Neto explicaram o manejo das novilhas durante o período de adaptação e dos bezerros nascidos. Os animais estão pastejando uma área de 12 hectares com capim Brachiaria brizantha BRS Piatã dividida em 16 piquetes, mudando de piquete a cada dois dias. “Trabalhamos para que as novilhas possam expressar todo o potencial genético. Esperamos entregá-las ao final da prova com o desenvolvimento adequado e em condições de participar de outras provas”, disse Neto. <b>Próxima edição</b> Antes da abertura da 1ª Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto de Zebu Leiteiro, produtores, pesquisadores e representantes de entidades de criadores se reuniram no CTZL para discutir os detalhes do regulamento da segunda edição da prova. “A ideia é incorporar as ideias de modo a atender o criador da melhor forma”, explicou Martins. A principal novidade é a inclusão das raças Guzerá Leiteiro e Sindi Leiteiro. O regulamento deve ser divulgado nas próximas semanas. “É importante mostrar o potencial das raças zebuínas leiteiras e fazer a mensuração em ambiente natural de Cerrado, divulgando esses números. Queremos fazer algo sustentável e mostrar que a rentabilidade é possível dessa maneira”, disse Marcelo Toledo, superintendente técnico da ACZP. Presente à reunião, o pesquisador da Gestão Unificada – Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (Emepa), Daniel Benítez, informou que a instituição deseja realizar a mesma prova nas condições ambientais da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco e de Alagoas. “A prova talvez seja a forma mais prática e democrática que a Emepa acredita para impactar o setor”, afirmou.

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