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Mesmo com um retorno financeiro inexpressivo, o Amapá tem quase 270 mil cabeças de búfalos, o segundo maior rebanho do Brasil, perdendo apenas para o Pará, que tem pouco mais de 500 mil cabeças. Ambientalistas apontam que essa criação está descontrolada e é a maior responsável pela catástrofe ambiental que o Estado está vivendo, principalmente na região do rio Araguari. Com o peso dos animais, valas foram criadas e agravadas com a força das águas, mudando o curso do rio. O resultado foi o assoreamento do leito que culminou com o fim do fenômeno da Pororoca em 2013. A água doce não encontra mais com o mar e as famosas ondas deixaram de existir. Além disso, a população ribeirinha perdeu a capacidade de se locomover pelo rio, deixou de pescar e sofre para armazenar água da chuva, já que a água da pecuária não é boa para o consumo e o Estado passa seis meses sem chuvas. Nem mesmo o retorno econômico pode ser usado para justificar os impactos ambientais gerados pela grande quantidade de búfalos. Isso porque a pecuária, incluindo bovinos e bubalinos, corresponde a um pouco mais de 3% do PIB (Produto Interno Bruto) do Estado, a produção de leite é baixa e a exportação da carne proibida, por ser o único lugar no País considerado de alto risco para febre aftosa. Patrícia Pinha, chefe da reserva do lago Piratuba, do Instituto Chico Mendes, explica que o desvio artificial do curso do rio provocado pelo rebanho tem causado danos que, no futuro, terão impactos ainda maiores, como é o caso da erosão do arquipélago de Bailique, na foz do rio Gurijuba, um afluente do rio Amazonas. — Com a mudança do curso do Araguari, as águas do rio passaram a desaguar no Gurijuba. A maior vasão de água está ruindo as ilhas. Logo, os moradores dessa região serão desalojados. A chefe da reserva afirma que, em curto prazo, não há expectativa de reverter esse quadro. — Seria um investimento pesado em estudos, pesquisas e obras. Mas seria apenas o primeiro passo. O rio tem que voltar para o curso normal. Queremos que a bubalinocultura (criação de búfalos) seja mais responsável. Não percebemos o interesse deles (criadores de búfalos) de fazer da pecuária algo mais criterioso e que respeite a natureza. <b>Queda de braço</b> O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Amapá, Iraçu Colares, discorda que o búfalo seja o vilão das mudanças pelas quais a região tem passado. Colares não descarta a participação dos rebanhos, mas diz que a construção das hidrelétricas e as modificações naturais também devem ser consideradas. — É irresponsável falar que o problema no Araguari é o búfalo. Sempre vai ter a mão do homem alterando a natureza, mas, nesse caso, tem um propósito, que é a produção de alimento. Quanto a construção das hidrelétricas, Patrícia argumenta que os impactos delas só serão notados após o início de funcionamento, o que ainda não aconteceu. O senador João Capiberibe e sua mulher, a deputada federal Janete Capiberibe, dividem a mesma opinião quanto à criação de búfalos, que está longe de ser a produção de alimentos. Ambos acreditam na possibilidade de boa parte do rebanho servir apenas para a demarcação de terras. A deputada afirma que não há justificativa para um rebanho tão grande no Amapá, que, segundo ela, descaracteriza o meio ambiente. — Existe a possibilidade do latifúndio. É estranho algo pouco lucrativo existir nessa proporção. Já o senador Capiberibe, que também já foi governador do Estado, explica que já houve projetos para incentivar o recolhimento do leite dos búfalos, que ficam, geralmente, em áreas inóspitas e alagadas, de difícil acesso. Porém, os criadores não aceitaram. Hoje, apesar do tamanho do rebanho, os amapaenses consomem queijo da fêmea do búfalo exportada de São Paulo. — Existem diversos motivos que levam à criação do búfalo, entre eles o incentivo financeiro, o baixo custo do manejo e algum consumo da carne, porém não descarto a ocupação de grandes áreas como reserva de valor. Capiberibe faz um alerta também à destruição dos mangues que, de acordo com ele, está ligada à criação de búfalos. — A abertura de valas está levando água doce para os mangues, deixando a água salobra e matando a fauna. Ao ser questionado sobre a inexpressividade do mercado da carne do Estado e o custo x benefício em relação aos possíveis impactos ambientais, Colares assume a baixa representatividade da pecuária bubalina e faz uma denúncia. — Não produzimos queijo, mas a representatividade da carne é mascarada. São 200 animais por dia nos matadouros, mas nenhum açougue assume que vende carne de búfalo, por causa da discriminação. Acredito que 50% da carne vendida no Estado é de búfalo. O MPF (Ministério Público Federal) está investigando os problemas que, em maior ou menor grau, podem ter contribuído para o fim do fenômeno da Pororoca e outros impactos ambientais, como a criação descontrolada de bubalinos na região do Lago do Piratuba e o licenciamento ambiental da Hidrelétrica de Ferreira Gomes. <b>Febre aftosa</b> O Amapá é o único Estado brasileiro considerado de alto risco para a febre aftosa. A avaliação faz com que a carne produzida na região, seja bovina ou bubalina, não possa ser exportada, apenas consumida internamente. Amostras de animais foram enviadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária no início deste ano. Entretanto, o relatório que poderia classificar o Estado como "risco moderado", que estava previsto para julho, foi adiado e será divulgado somente no final do ano. <b>Por que o búfalo?</b> O búfalo é um animal rústico, que consome vários tipos de alimentos presentes na natureza e exige baixa manutenção. O estímulo à criação do animal no Brasil começou no fim da década de 1970, quando o País decidiu ajudar a pecuária nos Estados onde as condições para a criação de bovinos era inviável ou difícil, como o caso de áreas alagadas. A manutenção de baixo custo desse animal é um atrativo, principalmente para quem vive da fabricação de queijo. O leite da fêmea do búfalo rende mais e o produto final é vendido por até o dobro do preço dos queijos feitos com leito bovino. O brasileiro ainda não tem o costume de consumir a carne de búfalo, porém, há a denúncia da mistura de carnes bovinas e bubalinas em diversos Estados brasileiros. Para o coordenador do grupo de pesquisas com búfalos da Unesp Botucatu, André Jorge, é comum animais serem usados em latifúndios. O docente alerta para a diferença entre criadores e exploradores de animais, como os búfalos, e os danos que essa situação pode causar. — O animal encontra um ambiente favorável para se reproduzir, sem a intervenção humana, e ele acaba virando selvagem, impactando no meio ambiente. A culpa não é do animal, e sim do criador, que pra mim é um explorador. A prática é muito comum nas regiões onde o latifúndio predomina.

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