CPT - Centro de Produções Técnicas

O Ano da Cabra não começou bem para o rebanho bovino de Pi Hui. O fazendeiro, de 53 anos, já mandou para ao abate 180 vacas leiteiras ­ cerca de 20% de seu rebanho ­ nos últimos meses, depois que o excesso de oferta de leite no mercado global derrubou os preços aos menores patamares em seis anos. "Acho que não vou conseguir aguentar se tiver que abater mais vacas", diz Pi, que começou a trabalhar na área aos 16 anos, como ordenhador. "E se os preços caírem mais, terei de fazer isso", diz. "Preciso sobreviver. Que escolha tenho?" Pi já está perdendo mais de 100.000 yuans (US$ 16 mil) por mês e, com o início do Ano Novo Lunar chinês, poderá ser forçado a considerar a opção que tenta evitar. Ele não é o único. Outros produtores da China também estão jogando leite fora e abatendo animais depois que uma "bolha" no segmento de lácteos começou a estourar, nos últimos três anos. O impacto também está sendo sentido além da China, e produtores de países como Estados Unidos e Austrália se preparam para enfrentar este ano guerra de preços, redução de rebanhos e renda mais baixa. Segundo o Banco Central da Nova Zelândia, a queda das cotações dos produtos lácteos é um dos maiores riscos econômicos para o país, um grande exportador de leite em pó. Os problemas do segmento ilustram o tamanho da influência que a China exerce no mercado global de commodities. Há cerca de três anos, a demanda voraz do país por leite, leite em pó e queijo levou desde fazendeiros da neo­zelandeses até banqueiros de Wall Street a apostar na pecuária leiteira. Como reflexo desse movimento, a produção mundial de leite deverá ser 8,6% maior este ano que em 2011, de acordo com estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). O preço do leite em pó na plataforma de negociação GlobalDairyTrade, referência para o mercado mundial, atingiu o menor nível em seis anos ­ US$ 2.229 a tonelada em 2 de dezembro, 55% menos que no mesmo período de 2013. Os preços melhoraram um pouco desde então, mas analistas preveem mais quedas. "Houve um erro de cálculo da indústria leiteira [da China] no fim de 2013, de que a oferta doméstica de leite continuaria muito apertada", afirma Sandy Chen, analista do Rabobank, banco com forte atuação no setor de agronegócios.Cenários parecidos estão se desenhando em mercados de commodities como minério de ferro, carvão e cobre, após anos de apostas dos produtores na forte demanda chinesa. No caso do mercado de lácteos, a grande mudança tem origens em 2008, quando leite contaminado na China foi responsável pela morte de seis crianças, pela internação de milhares de pessoas e colocou todo o segmento sob investigação. Em 2009 e 2010, o governo chinês começou a ser mais rígido em relação aos padrões de qualidade e forçou a fusão de algumas pequenas fazendas a gigantes estatais, em uma grande reorganização que continua em curso até hoje. A demanda chinesa por leite continuava crescendo, mas a produção permaneceu mais ou menos estagnada. Mas, em 2013, um segundo episódio envolvendo a segurança do leite vendido no país tirou do mercado muitas pequenas fazendas, e a produção doméstica caiu 6% sobre 2012, a 35,3 milhões de toneladas. Em abril daquele ano, os preços haviam mais que triplicado em relação ao patamar de junho de 2008, antes do primeiro escândalo envolvendo a qualidade do leite. Assim, produtores de Nova Zelândia, EUA e outros países aproveitaram a deixa. As importações chinesas de leite da Nova Zelândia, que respondem por 80% do total que o país asiático compra no exterior ­ Austrália e Europa concentram o restante ­, subiram 47% em 2013 em relação ao ano anterior, para 622 mil toneladas, conforme o USDA. Pecuaristas e investidores começaram a apostar que a demanda continuaria vigorosa. E, nesse contexto, o banco central da Nova Zelândia diz que a dívida relacionada ao leite aumentou no país quase 50% em junho do ano passado, para 35,52 bilhões de dólares neo­zelandeses (US$ 26,8 bilhões), em relação ao mesmo mês de 2008. Em 2008, a companhia de private equity KKR & Co. uniu­se a um grupo que investiu US$ 150 milhões na China Modern Dairy Holdings, que usou os recursos para ajudar a importar milhares de bovinos. Uma porta­voz da KKR, que no ano passado vendeu o resto de sua participação no negócio, disse que a empresa fez esse aporte para atender a "uma necessidade social" resultante dos desafios surgidos na China em relação à segurança dos alimentos. Quando os preços do leite dispararam para níveis recorde na metade de 2013, pequenos criadores de gado leiteiro chineses começaram a voltar ao mercado e a crescer. E a produção de leite da China voltou a crescer. Foram 36 milhões de toneladas em 2014, 5% mais que em 2013. No primeiro trimestre do ano passado, a China comprou o equivalente a quase um ano de importações. O volume chegou a 930 mil toneladas de leite em pó e, com os estoques cheios, os importadores começaram a reduzir as compras, como observa Renee Tai, analista da UOB Kay Hian Holdings, empresa de serviços financeiros de Hong Kong. Outros acontecimentos aprofundaram o golpe sofrido com a queda das compras chinesas. Quando a Rússia proibiu as importações de alimentos da Europa, em agosto de 2014, em retaliação às sanções internacionais impostas ao país por causa do conflito na Ucrânia, os mercados mundiais estavam carregados de produtos lácteos não vendidos. Os preços despencaram. Em novembro, os preços do leite chinês havia caído 50% em relação ao começo do ano. Em dezembro, a cooperativa neo­zelandesa Fonterra, maior exportadora de lácteos do mundo, cortou sua previsão para o pagamento anual que concede aos pecuaristas em 44%, para 4,70 dólares neo­zelandeses por quilo de matéria seca do leite ­ menor nível desde o ciclo 2008/09. No fim de 2014, indústrias chinesas que haviam retomado as importações do leite em pó por causa da queda dos preços começaram a cancelar contratos ou a se recusar a renová­los. A Huaxia Dairy Farm, que conta com 18 mil cabeças de gado leiteiro a leste de Pequim, reduziu sua meta de crescimento de rebanho de 30 mil para 25 mil cabeças até o fim de 2015, de acordo com seu presidente, Charles Shao. Mas alguns pecuaristas estão aproveitando a oportunidade para mudar a maneira como fazem negócios. Um exemplo é Wei Pu, que tem 800 cabeças na Langfang City Delong Dairy Cow Breeding, na Província de Hebei (grande polo produtor no norte da China), e diz estar se concentrando na criação de bezerros para corte. Para Pi Hui, o fazendeiro de Linli County, na Província de Hunan, enviar as vacas para o abate não foi fácil. Os animais o tornaram próspero o suficiente para comprar um iPhone 6 e dirigir um utilitário esportivo Honda. Sujeito afável, que às vezes fala como se estivesse gritando, Pi tentou evitar o abate de suas vacas por sete meses suspendendo o reajuste de salários de funcionários e tentando, sem sucesso, obter ajuda do governo local. "Mas os preços caíram em abril, depois em maio, e junho, e agosto, setembro, outubro e novembro", diz Pi. "Em novembro eu comecei a abater minhas vacas", lamenta ele.

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