CPT - Centro de Produções Técnicas

Um grande encontro para produtores, cooperativas, indústrias, especialistas e universitários, que trabalham com o leite em Mato Grosso, está ocorrendo no Centro de Eventos do Pantanal em Cuiabá. Aberto, nesta manhã (25), por Leide Novaes Katayama, diretora técnica do Sebrae MT, o II Encontro Mato-grossense da Cadeia Produtiva do Leite é uma realização da instituição em parceria com a Embrapa Pecuária Sudeste, Universidade Federal de Mato grosso (UFMT) e prefeituras municipais do estado. Aproximadamente 300 pessoas estão participando do evento. Caravanas de produtores de leite de sete regiões de MT vieram à Cuiabá. Hoje, a programação está sendo realizada no Centro de Eventos do Pantanal. Vários palestrantes convidados, inclusive de fora do estado, estão abordando temas de interesse de produtores de leite, representantes de cooperativas e do setor setor industrial. Amanhã (26), participantes do evento vão ao Dia de Campo na Fazenda Experimental da UFMT em Santo Antônio do Leverger. Na abertura do encontro, Leide falou sobre o Projeto de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Leite do Sebrae MT e destacou a forma descentralizada de atuar para atender várias regiões do estado. "Quarenta técnicos de prefeituras estão em treinamento contínuo por meio do Programa Balde Cheio, uma das ações do projeto, que está atuando em 35 municípios. No momento, mais de 500 pequenas propriedades rurais estão sendo assistidos e trabalhadas pelo projeto”, informou a diretora. Ela agradeceu a presença e confiança dos produtores, que deixaram suas propriedades para participar do evento. "Este é um trabalho conjunto com a participação de vocês e de todos os parceiros”, ressaltou a diretora. <b>Cenários</b> A primeira palestra do II Encontro Mato-grossense da Cadeia Produtiva do Leite foi realizado por Valter Galan, engenheiro agrônomo e mestre pela Universidade de São Paulo (USP), que atuou como gerente regional da Nestlé, entre outros, e atualmente é consultor da MilkPoint Serviço de Inteligência de Mercado. O tema tratado foi ‘Tendências e Cenário para o Leite no Mundo e no Brasil’. Ele dividiu a palestra em duas partes: mercado; estrutura e competitividade. "A produção do leite no Brasil vem crescendo bastante. O índice de crescimento ficou entre 8 a 10%, em 2014, em relação a 2013”, afirmou. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o aumento de produção foi de 8,6%, entre janeiro e junho de 2013. A média de preço deflacionado do produto está em patamares elevados, nos últimos quatro anos no país: R$ 1,098/ litro. Nos últimos quatro meses, ficou entre R$ 1,09 e R$ 1,10/litro, acrescentou. Na quarta semana de agosto, os preços eram: R$ 2,14/litro para leite UHT; R$ 10,40/litro para leite em pó; e R$ 12,70 para queijo muçarela. Nas últimas semanas, os preços estão baixando. O leite UHT estava segurando o preço do produto, até agora, segundo Galan. Esta tendência de redução de preço é mundial e chegou até a 50% em outros países. Isto está ocorrendo devido ao excesso de leite produzido, em 2013, no mundo, explicou. Em leilão internacional, o queijo Chedar chegou a baixar 6,5% do preço, observou. Galan esclareceu que é preciso analisar o preço do leite, comparando com outros segmentos. Soja e milho são fundamentais na ração para alimentar o gado leiteiro. A relação com a soja, por exemplo, está se tornando vantajosa. Para produzir 1.150 litros de leite era necessário uma ton de soja. Hoje, é possível produzir 1.147 litros do produto com a mesma quantidade de soja. A alta produção do grão nos Estados Unidos, este ano, indica que seu preço vai baixar mais e isto será bom para os produtores de leite. Em relação ao milho, a tendência é de que o preço do leite continue ganhando. "A política de preços mínimos poderia ser mais efetiva”, sugeriu o palestrante. A perspectiva de preços mais baixos da soja e milho, no próximo ano, serão vantajosos para criadores de suínos, aves e leite, previu. <b>Formalização</b> Galan destacou o fato de o leite brasileiro estar em forte movimento de formalização, nos últimos anos. Programas como o Balde Cheio, desenvolvido pelo Sebrae em Mato Grosso, corroboram este cenário positivo, ressaltou. "Está migrando do informal para o formal”, resumiu. Esta tendência é muito favorável para a cadeia produtiva do leite como um todo, pois significa que está melhorando na questão de sanidade, produtividade, qualidade e gestão. Por outro lado, afirmou que a cadeia do leite ainda tem grandes desafios pela frente no país. É um segmento que é menos estruturado, comparado com as cadeias do frango e suínos. A desconcentração da indústria – que comprava cerca de 40% da produção de leite e, atualmente compra 30% – é um aspecto importante de ser compreendido, salientou. Enquanto a capacidade produtiva dos produtores é forte, o elo com a indústria está fragmentado. Uma nova realidade está se desenhando no país e aponta oportunidades para cooperativas e pequenas indústrias e empresas regionais de beneficiamento de leite, alertou o consultor. A redução da importação e de produtos importados derivados do leite também indica que a cadeia do leite está se desenvolvendo rapidamente e com bom cenário à frente. O aumento do consumo per capta acima de 40% no Brasil (equivale a 28 milhões de pessoas), entre 2000 e 2013, estimulou o crescimento do segmento. A produção cresceu 62%, equivalendo a 13 bilhões de litros a mais, que corresponde a duas Argentinas e 1,5 Austrália. "Conseguimos colocar o Brasil em patamar elevado no consumo do leite”, observou Galan. Nesse período, o crescimento do consumo de queijo foi de cerca de 40% ou 9% a.a; cerca de 5,5% de iogurte a.a; e de aproximadamente 15% a.a de leites fermentados/saborizados. No caso do leite líquido e do leite em pó, o comportamento foi diferente. O primeiro cresceu à taxa de 2,5% a.a, e o segundo está estável com tendência a decrescer. O consumo de leite no Brasil precisa ser estimulado, argumentou o palestrante. Atualmente o brasileiro consome per capta 170 litros/ano, enquanto no Uruguai este índice é de 205 litros/pessoa /ano e, na França, 290 litros/pessoa/ano. <b>Qualidade</b> A qualidade do leite é fundamental para se conseguir bons preços junto à indústria, alertou Galan. A contagem bacteriana é a referência para qualificar o produto, ou seja, o sistema de pagamento adotado por grandes empresas é a qualidade do leite. Em 2013, 46% do leite produzido no país apresentavam índice abaixo de 100 mil UFC/ml (considerado alto). O ideal é que esteja abaixo de 300 mil UFC/ml. Em julho deste ano, este padrão desejável foi constatado em 67% do leite produzido no país. Foi um salto admirável e demonstra o empenho dos produtores em melhorar a produtividade e qualidade do produto, elogiou o consultor. Outro aspecto importante, que está ocorrendo, é o fato de a indústria estar se desconcentrando, enquanto o varejo está ficando muito concentrado. Quatro grandes redes de supermercados são as que mais faturam com os produtos do leite. Em 1999, 31% do faturamento delas era relacionado com o leite e derivados; em 2001, 54%; e em 2013, chegou a 60%. "A solução é aumentar gastos com distribuição e vender para pequeno varejo”, aconselhou especialmente às cooperativas. Um novo player ingressou na cadeia produtiva do leite, recentemente. Trata-se da Lactalis (francesa) que comprou plantas da BRF e quatro fábricas da LBR (RS, GO e nordeste). Dessa forma, a Lactalis se tornou a segunda maior empresa compradora de leite do país, ficando atrás apenas da Nestlé, segundo estimativas da MilkPoint. <b>Desafios</b> Os desafios para continuar crescendo e melhorando produtividade e qualidade são os seguintes para a cadeia produtiva do leite no país: necessidade de aumentar o consumo brasileiro per capta; melhorar a competitividade internacional do leite (exportação é mais importante do que importação); aprender a lidar com a competitividade de outras culturas no campo; e a concentração do varejo junto à pulverização da indústria (dificulta o estabelecimento da coordenação da cadeia). A ampliação da inovação nos produtos do leite é outro desafio e tendência. No Brasil e outros países, há produtos inovadores no mercado tais como: sucos de frutas com proteína láctea; barra de cereais com iogurte; água com proteína isolada de soro de leite (faz sucesso na Nova Zelândia e é alimento indicado para intervalos entre refeições); iogurte power (grego com alto teor de proteína ganhou prêmio de inovação nos Estados Unidos). "Precisamos de mais inovação que levem leite e aumentem o consumo”, recomendou Galan. O preço do leite brasileiro será cada vez mais comparado ao preço mundial, enfatizou. Entre 2008 e julho deste ano, o produto nacional esteve menos competitivo do que o leite produzido nos países do Mercosul. O leite neozelandês é mais barato do que o brasileiro, comparou. A ocorrência de fraudes na produção de leite e derivados prejudica toda a cadeia, salientou. "O consumidor vai para outros produtos”, argumentou. Apenas 30% do leite são inspecionados no país, lamentou. Produtores acima de 500 litros/dia já ingressam na faixa de melhor produtividade e qualidade, e passam a ser considerados importantes no segmento. O aumento do custo da mão de obra está começando a levar produtores a aderir à produção robotizada. O primeiro robô de ordenha já está em atividade numa propriedade rural do Paraná, informou. Uma cooperativa gaúcha está fomentando a compra desta tecnologia. Esta é uma tendência em voga em países desenvolvidos como os Estados Unidos, onde há subsídios do governo para adquirir máquinas, equipamentos e tecnologia no campo. A Viva Lácteos, associação brasileira de laticínios, foi criada recentemente e é uma boa novidade para a cadeia do leite, informou Galan. Outra boa notícia é o lançamento pela Danone do Programa de Garantia de Preço Fixo ao Produtor. Estas novidades apontam para a estruturação do segmento no país, que precisa se organizar rapidamente para lidar com seu crescimento, exigências do mercado e oportunidades de negócios, concluiu o palestrante.

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