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Após o filho ser diagnosticado com alergia alimentar, a advogada Maria Cecilia Cury Chaddad teve de fazer dieta para amamentá-lo com segurança. Ao mudar a rotina alimentar, precisou lidar com a falha das indústrias em não rotular corretamente os alimentos alérgenos. No entanto, ela não foi a única. Tanto que, em fevereiro deste ano, foi lançada a campanha “#poenorotulo” (Põe no Rótulo), que incentiva a conscientização quanto à importância da rotulagem clara e correta dos alimentos. Porta-voz da ação, Maria Cecilia conta que a campanha nasceu de uma ação conjunta de mais de uma família de alérgicos alimentares. Diretamente, cerca de 30 famílias, em maior ou menor grau, dedicam horas na semana a favor da campanha, que é movimentada nas redes sociais (a página do Facebook já conta com mais de 64 mil seguidores). Outras famílias ajudam na divulgação. Hoje, grupo está com 900 mães de filhos com algum tipo de alergia alimentar. O objetivo da campanha #poenorotulo é alertar autoridades sobre a importância de informações claras nas embalagens de alimentos capazes de provocar alergia, como leite, soja, ovo, peixe, crustáceos, amendoim, oleaginosas, entre outros. A ação quer evitar reações ou crises que, dependendo do grau de sensibilidade do alérgico, podem levar a choque anafilático e fechamento de glote, entre outras consequências graves. Além dos alérgicos mais severos, existe um tipo de reação alérgica chamada IgE não mediado, que manifesta reações tardias, podendo chegar a dias depois da ingestão do alimento. Apesar de não ser fatal, como no caso dos mediados, é igualmente preocupante, porque não é possível o diagnóstico por meio de exames de sangue. Os sintomas vão de vômitos tardios, sangue nas fezes, cólicas, intestino preso, baixo ganho de peso, entre outros. Segundo Maria Cecilia, muitas reações são, de fato, relacionadas ao consumo inadvertido de alérgeno. “Seja pela letra pequena, nomenclatura ou pela ausência de informação sobre o risco da presença de traços pelo compartilhamento da linha de produção, por exemplo”, afirma a advogada, que defendeu sua tese de doutorado em Direito tratando da presença de alérgenos em alimentos como forma de garantir, à população alérgica, saúde e alimentação adequada. No Brasil, cerca de 8% das crianças e 3% dos adultos possuem alergia alimentar e vivem reféns de rótulos com pouca ou nenhuma informação. Segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), a alergia alimentar surge entre 8% e 10% da população brasileira e é apontada como uma das principais causas da anafilaxia. A campanha revela que, nas indústrias, há uma prática comum de compartilhamento de maquinário para produção de vários produtos e alimentos – com informações incompletas nos rótulos. <b>Movimento já começa a colher resultados </b> A ação “poenorotulo” sensibilizou a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, desde o dia 16 de junho, no site da agência, teve início uma consulta pública sobre a proposta de regulamentação da rotulagem de alergênicos em alimentos. “A participação popular na consulta pública promovida pela Anvisa reforçará aquilo que estamos afirmando nas nossas manifestações”, afirma a advogada Maria Cecília Cury Chaddad. A consulta pública é uma forma de a Anvisa disponibilizar uma proposta de regulamentação em seu site para que qualquer pessoa da sociedade (física ou jurídica) se manifeste. Os comentários podem ser gerais, sobre a pertinência ou impertinência da proposta ou, ainda, especificamente sobre um ou mais artigos da norma. Qualquer pessoa pode participar. No final, as contribuições serão analisadas pela agência antes da publicação da resolução propriamente dita. <b>Ação movimenta rio-pretenses </b> A médica veterinária Roberta de Salles Guarnieri é uma das engajadoras da campanha “#poenorotulo”, em Rio Preto. Mãe de Manuela, de 1 e 11 meses, que foi diagnosticada com alergia a proteína do leite, ela se tornou uma pesquisadora do assunto. Após o diagnóstico, em julho do ano passado, ela, que amamenta, precisou excluir certos alimentos da sua rotina alimentar, assim como da sua filha. O grande problema, segundo ela, foi a falta de informações nos rótulos de alimentos industrializados. “Quero ter segurança na hora de dar um alimento para a minha filha consumir”, diz. Segundo Roberta, doenças respiratórias, como muita tosse, e diarreia foram os sinais apresentados pela filha para detectar a alergia à proteína do leite. A empresária Mila Haddad também é favorável à campanha. Apesar da filha ter outras alergias. Manu, de 5 anos, é alérgica a ácaros, tem rinite e alergia a protetor solar e repelente. Após uma peregrinação por produtos adequados para a pequena, ela abriu uma loja especializada em alérgicos em um shopping de Rio Preto e recebe famílias preocupadas com a alergia alimentar e em busca de opções adequadas. Após a procura dos clientes, Mila conta que começará a vender alimentos para alérgicos, a partir da semana que vem. “Após a procura, consegui a autorização da franqueadora para vender. Primeiramente, vamos oferecer alguns tipos de leite, achocolatado, chocolate e creme de soja, por exemplo. No entanto, pretendemos ampliar a linha a outros tipos de alimentos.” <b>Associação é parceira da campanha</b> A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) é uma das parceiras da campanha “Põe no Rótulo”. Para a instituição, o tema também é importante para a classe médica brasileira, que também vivencia o problema da rotulagem. “Hoje, boa parte das reações alérgicas alimentares que chegam em pronto-socorros são decorrentes da má rotulagem dos alimentos”, explica Fabio Castro, presidente da Asbai no Brasil. Castro afirma que todas campanhas, com a participação de pacientes e seus familiares, são importantes, pois são eles que passam pelos riscos da doença e têm muita força junto às autoridades. “Por outro lado, é fundamental a participação dos médicos e entidades médicas para que o movimento tenha embasamento técnico e científico. Muitas reações alérgicas, segundo o médico, estão relacionadas a equívocos na leitura de rótulos industrializados. “Reações muito graves ou até fatais podem ser evitadas com uma boa informação.” Segundo ele, além da rotulagem correta, esses rótulos precisam ter termos menos complicados para que todos possam entender. “O conhecimento de quais produtos estão presentes no alimento é fundamental e os termos utilizados têm de ser facilmente compreendidos pela população”, reforça. <b>Entenda </b> :: Lactose x proteína do leite – O termo “lactose” acabou banalizado e muitas pessoas usam, erroneamente, a expressão “alergia a lactose”. Mas isso não existe. Lactose é o açúcar do leite e não causa alergia, e sim intolerância. As proteínas do leite, como a caseína, entre outras, são as causadoras da alergia alimentar :: No cotidiano – A alergia não é bem entendida e aceita por muitos, que acham que: “é frescura”; “é exagero”; “um pouquinho só, ou só um dia, não fará mal”. Mas, para um alérgico, não importa se é uma migalha ou uma porção, o resultado pode ser catastrófico, levando, em vários casos, até à morte, em decorrência de choque anafilático. Apesar da gravidade, diferentemente do que tem sido veiculado, não há a necessidade de que a pessoa com alergia, seja alimentar ou de outro tipo, fique reclusa e não conviva em sociedade

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