CPT - Centro de Produções Técnicas

Os brasileiros consumirão R$ 1,5 trilhão em 2007. O valor equivale a praticamente metade do “novo PIB” e foi projetado pelo indicador IPC Target 2007 com base na avaliação da relação renda x consumo dos 5.564 municípios brasileiros. O índice prevê neste ano um aumento de consumo de 3,51% em termos reais na comparação com o ano passado, motivado pelo crescimento populacional de 1,57 %, para 189,3 milhões de habitantes em 2007, e reajuste no salário mínimo, para R$ 380. Deste contingente, os principais responsáveis serão os integrantes das classes A e B. Apesar de ter inchado pela mobilidade social das classes D e E, a classe C não demostra aumento no potencial de consumo. Alimentos e bebidas são o segundo item na escala do consumo nacional. A categoria responde por 16,7% da caderneta de despesas dos brasileiros, contra 25,4% de despesas com o lar, 7,7% com transporte e veículos, 7,3% com higiene e saúde, 4,9% com vestuário e calçados, 4,4% pela recreação e viagens, 3,8% com móveis e eletrodomésticos e 3,6% com educação. O resultado da pesquisa, divulgada em maio pela autora Target Marketing, fornece uma interpretação que ilustra a análise de um dos principais pesquisadores econômicos do setor lácteo, Glauco Carvalho. “O aumento da demanda de produtos lácteos, como a maioria dos bens de consumo não-duráveis, tem uma relação estreita com o aumento de renda. Ou seja, melhorias de renda provocam incremento na demanda de lácteos.” Carvalho é formado em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1997 e atualmente integra o grupo de pesquisadores da Embrapa Gado de Leite. Mestre em Economia Aplicada pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), foi analista setorial na Gazeta Mercantil e consultor da Mendonça de Barros Associados na divisão de estudos setoriais. O economista participou recentemente como palestrante do Simpósio Abiq 2007, realizado em abril pela Associação Brasileira das Indústrias de Queijo, durante a TecnoLáctea 2007. No Simpósio da Abiq, o sr. avaliou que o cenário mundial está favorável, com impacto positivo sobre a demanda e preços internacionais. De que maneira isso influi diretamente no setor lácteo brasileiro? O aumento da demanda de produtos lácteos, como a maioria dos bens de consumo não-duráveis, tem uma relação estreita com o aumento de renda. Ou seja, melhorias de renda provocam incremento na demanda de lácteos. A dimensão desse incremento pode ser traduzida pela elasticidade-renda da demanda, que corresponde ao incremento percentual na demanda para cada 1% de aumento na renda. Para os lácteos, essa elasticidade varia de 0,38% (renda mais alta) até 0,54% (renda mais baixa). Nesse sentido é que o reflexo recai sobre o setor. A previsão de crescimento da economia mundial para 2007 e 2008 é de 4,9%, com o comércio mundial crescendo próximo de 7%. Portanto, tem-se um cenário internacional bastante favorável, criando boas condições para o crescimento da economia brasileira também. Isso, por sua vez, provoca incremento de renda das famílias e de demanda de lácteos. O aumento da renda da população é o principal trunfo em que a indústria láctea pode se basear para incentivar o consumo? É um trunfo muito importante, mas além da renda existem outros. O consumo de leite é dado pelo consumo das famílias, das empresas – que usam o produto como insumo –, de programas governamentais e pelo consumo externo. Todavia, algumas variáveis fogem ao controle do setor, como a taxa de câmbio, por exemplo, cuja desvalorização [do real] poderia incentivar a exportação. Vejo que existem oportunidades no incremento de campanhas publicitárias, na linha de alimentos funcionais e na educação dos consumidores sobre os benefícios dos produtos lácteos. Isso poderia ser feito a exemplo do que ocorreu em Goiás, ou seja, redução de tributos com o compromisso de que parte fosse utilizado em campanhas promocionais. Um outro caminho seria o uso de leite na merenda escolar, mas seria preciso uma ação maior do setor sobre os formuladores de política no Brasil. A demanda por lácteos no País pode ser impulsionada por novos produtos, variações do mesmo produto (embalagens, sabores, etc), campanhas institucionais e os outros pontos citados acima. O que faz do queijo o produto com maior elasticidade entre os lácteos? O queijo é um produto nobre: havendo renda ocorre consumo. Em estratos iniciais de renda, seu consumo ocorre sobre as commodities. À medida que a renda vai aumentando, ocorre uma migração para produtos mais finos. Como o setor lácteo pode se beneficiar de eventuais mudanças nas questões tributárias e regulatórias do País? No fim de 2005, o setor se beneficiou com a Lei do Bem, que desonerou alguns produtos lácteos de impostos como PIS/Pasep e Cofins. De forma simplista, poderia dizer que uma reforma tributária e regulatória tende a dar mais estabilidade para o País e, principalmente, a incentivar maiores investimentos privados. Esses investimentos, por sua vez, impulsionam o crescimento da economia e a renda das famílias. Maiores investimentos em infra-estrutura também auxiliam em melhorias das condições logísticas e de suprimento de energia elétrica, que acabam por reduzir custos de produção e distribuição. Por fim, essas reformas, se bem conduzidas, têm reflexos sobre o custo de mão-de-obra e sobre a política econômica em geral. Possibilitam uma redução mais acentuada das taxas de juros, com reflexo sobre a taxa de câmbio. São reformas importantes para melhorar o ambiente de negócios no País. Gostaria que o sr. retomasse e resumisse o raciocínio explicitado no simpósio sobre a projeção de crescimento da demanda de lácteos no Brasil de 2005 a 2015. Para projetar a demanda interna de queijo, consideraram-se os três componentes básicos da demanda: (i) crescimento populacional; (ii) crescimento e distribuição da renda; e (iii) elasticidade-renda da demanda. As projeções de longo prazo se basearam em três cenários, que contemplam séries distintas de crescimento econômico e de renda familiar. Considerou-se que, até 2015, a renda média das famílias aumentará na razão do crescimento do PIB com o crescimento do número de famílias, e ocorrerá uma migração dos domicílios das faixas de renda mais baixas para as mais elevadas em cerca de 5% a cada ano, melhorando a distribuição de renda do País. O cálculo da elasticidade-renda da demanda por queijo se baseou na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) de 2002-2003. Nos últimos anos, a produção de leite se expandiu em direção ao Norte e Nordeste. O que isso representa para o segmento? Destacaria dois pontos principais: 1) uma maior distribuição da oferta de matéria-prima. No Brasil, que tem uma dimensão continental, isso reduz o custo logístico; e 2) o leite é um produto importante em todos os países do mundo. Além do valor nutritivo, o leite e seus derivados participam na geração de renda de muitos países, geram empregos diretos e indiretos e contribuem com a redução da migração de pessoas do meio rural para os centros urbanos. Nas Regiões Norte e Nordeste, a agroindústria do leite tem um papel crucial na economia das pequenas cidades, que são maioria nessas regiões. A balança comercial de queijos involuiu vertiginosamente a partir de maio de 2006 e a tendência permanece. Quais são os fatores que explicam esse comportamento? A valorização da taxa de câmbio é sem dúvida um importante fator. Existem variados contratos de exportação e muitos com vigência de 6 ou 12 meses, por exemplo. À medida que estes contratos vão vencendo, novas negociações são necessárias. Com uma taxa de câmbio (em R$/US$) cada vez mais valorizada, tornam-se necessários reajustes de preços em dólar para atenuar o efeito negativo do câmbio sobre a rentabilidade de exportação. De janeiro de 2005 a abril de 2007, o real se valorizou 25% em relação ao dólar. De janeiro de 2006 até agora, essa valorização foi de 11%. É uma perda muito grande para os exportadores. Especificamente no caso de queijos, as empresas produtoras e exportadoras são em geral de pequeno porte e são afetadas mais rapidamente quando ocorrem esses movimentos de câmbio. De todo modo, o que se tira é que está havendo menor oferta de leite na atual conjuntura e os preços estão em elevação, seja no varejo ou no atacado. A melhoria da renda das famílias propicia o repasse de preços. Isso não quer dizer que os preços irão continuar subindo por muitos meses; é conjuntural e a normalização da oferta atenua tais movimentos de alta. O câmbio favorece as empresas e fornecedores a investirem em compra de máquinas e insumos? Esse investimento pode ser encarado como uma maneira de amortizar as perdas com as exportações em longo prazo? São coisas diferentes. Realmente o câmbio favorece a importação de máquinas que não possuem similar no Brasil. Isso pode contribuir para melhorar a eficiência produtiva e modernizar o parque fabril. Em boa parte, isso aconteceu nos primeiros anos do Plano Real. Todavia, a realidade atual é outra. Temos uma produção crescente e a exportação de lácteos pode ser um mercado complementar ao interno. Criar um ambiente que melhore nossa competitividade contribui para o setor. A trajetória descendente da taxa de juros, mesmo em ritmo lento, também funciona como um componente motivador ao investimento em lácteos? Sem dúvida. A redução da taxa de juros estimula consumo e investimento. Assim, à medida que a Selic vai se reduzindo, melhora o ambiente de negócios no País, o que cria um efeito multiplicador na economia com ganhos de emprego e renda. Além disso, a queda da taxa de juros melhora as condições de financiamento e gera consumo. O Brasil possui competitividade em custo de produção de leite. Qual é a relação desse fato com a realidade do mercado energético? Os Estados Unidos estão investindo vultosos recursos na produção de etanol. Todavia, a matéria-prima utilizada é o milho, o que causou forte incremento em seus preços no segundo semestre de 2006. Como há uma escassez de terras nos Estados Unidos, o incremento nos preços do milho estimula o seu plantio em áreas anteriormente ocupadas com outras culturas. O reflexo é o incremento nos preços dos principais grãos produzidos no meio-oeste daquele país. O impacto sobre o setor lácteo refere-se ao incremento dos custos de produção via alimentação do rebanho. Na sua opinião, África, Oriente Médio, boa parte da Ásia, México e Rússia são potenciais clientes do Brasil em lácteos. Alguns desses países e regiões, no entanto, já travam relações comerciais com outros pares. Além da competitividade do custo de produção, o que credencia o Brasil a aumentar a parcela de provisão de alimentos ao mundo? O Brasil possui terras agricultáveis, tecnologias adaptadas e disponibilidade de recursos naturais para produzir alimentos, energia e fibras. Portanto, o País tem grandes oportunidade no abastecimento mundial. Todavia, a expansão deve ocorrer em equilíbrio com aspectos relacionados à sustentabilidade (socioeconômica-ambiental). Temas como emissão de metano, bem-estar animal, modelos de produção, recursos empregados, rastreabilidade e segurança dos alimentos estarão presentes cada vez mais na pauta do setor. Fonte: Dipemar

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