CPT - Centro de Produções Técnicas

Aos cinco anos, é Mateus quem toma a iniciativa. Antes de sair de casa, pede para a mãe não esquecer o kit de remédios. No supermercado, faz coro quando vê a dificuldade da família para selecionar os alimentos. “Ele mesmo fala: tem que botar no rótulo”, conta a mãe, Mariana Claudino, 41, sobre a dificuldade em encontrar informações claras sobre os ingredientes dos produtos –o filho é alérgico a três tipos de proteína do leite. “É uma loteria. Devido a um biscoito mal rotulado, ele já entrou em choque anafilático”, afirma Mariana. Em breve, rótulos de alimentos e bebidas trarão alerta sobre a presença de substâncias que causam alergias. A medida faz parte de uma proposta de resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), obtida pela Folha, e que será apresentada em audiência pública nesta quarta-feira (6). Pelo texto, rótulos terão que informar a presença de nove grupos de substâncias, que hoje respondem por 90% dos casos de alergias, segundo a agência. São eles: trigo e derivados, crustáceos, ovos, peixes, amendoim, soja, nozes e castanhas, leite e látex natural. <b>MOVIMENTO DE MÃES</b> O debate sobre o tema ganhou força no ano passado, com a criação do movimento “Põe no Rótulo”, que reúne cerca de 900 mães de crianças alérgicas. Hoje, a Anvisa já obriga as empresas a informarem os ingredientes, mas não havia uma norma que determinasse isso de forma clara. Várias substâncias são colocadas no rótulo com letrinhas miúdas e nomes técnicos. Para o médico Fábio Castro, professor de imunologia clínica e alergia da USP, a inclusão de avisos no rótulo pode reduzir o número de casos de reações causadas por esses produtos. “Hoje, o número de pessoas com alergia está aumentando de forma absurda”, diz. “E as pessoas têm dificuldade de saber o que contêm os alimentos. Não adiantar colocar caseína se a pessoa não tem a menor ideia de que é uma proteína do leite.” Agora, a ideia é que os avisos passem a constar com destaque abaixo da lista dos ingredientes. A proposta prevê que a letra seja igual ou maior à do restante da embalagem, com o aviso “Alérgicos: contém […]”. Empresas também terão que informar sobre possíveis casos de contaminação cruzada, quando uma máquina utilizada para fabricar um produto pode ter resíduos de outras substâncias. Nesse caso, será usada a expressão “pode conter”. A mudança pode encerrar a via-crúcis de familiares que precisam recorrer ao SAC (serviço de atendimento ao cliente) das empresas para obter informações. Nem sempre com sucesso. “Muitas vezes, o SAC só lê a lista de ingredientes e diz que não tem traços de algum produto. E, quando a mãe liga desesperada porque o filho teve reação, aí falam com a área técnica e descobrem que tem”, diz Cecília Cury, do “Põe no Rótulo”. Para o diretor Renato Porto, a principal dificuldade era criar uma regra de forma a não passar uma imagem negativa –ou até mesmo positiva– sobre a presença ou não de algumas substâncias. “Temos que tomar cuidado para não restringir a dieta da população brasileira sem justificativa. Alimento não é vilão. Só é para quem tem alergia”, afirma.

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