CPT - Centro de Produções Técnicas

Está no nome da classe animal: bebês mamíferos possuem a característica comum de tomarem leite. Uma espécie de mamífero — nós, seres humanos — inovou ao continuar tomando leite após a primeira infância. Existem evidências de ordenha de vaca para obtenção de leite datadas de 9.000 anos antes de Cristo. Há quem diga que outros animais só não fazem o mesmo pelo fato do leite ser escasso na natureza e, claro, por não terem domesticado outros animais e desenvolvido técnicas de conservação e eliminação de bactérias — a pasteurização. O que não significa que não apreciariam — experimente oferecer leite para um gato, por exemplo. &quot;O leite é um dos poucos alimentos que nasceu para ser alimento&quot;, diz José Alves Lara Neto, médico nutrólogo e vice-presidente da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia). Mas o que ele tem de tão rico? Cerca de 87% do leite é composto por… água! Contudo, os outros 13% são nutrientes importantes para nosso organismo, como proteínas, sais minerais, vitaminas e gordura. Dentre esses nutrientes, o cálcio é um dos principais. Isso porque não é tão fácil encontrar fontes ricas desse mineral, necessário em nosso organismo para a composição dos nossos ossos e para funções como contração muscular e coagulação. Por esse motivo, além de ser fundamental nos primeiros anos de vida — adquirido primordialmente pela amamentação materna — é indicado para todas as idades, na forma de leite de animais como a vaca. &quot;E quando falamos leite, falamos laticínios em geral&quot;, diz Carlos Alberto Nogueira de Almeida, diretor da área pediátrica da Abran. &quot;Queijos, iogurtes, todos são fontes dos nutrientes que o leite possui&quot;. O leite de cabra é semelhante ao de vaca em termos nutritivos. &quot;Mas é mais pobre em ácido fólico [vitamina B9], cuja carência pode causar anemia&quot;, diz o médico nutrólogo. Mas, apesar de rico e nobre, a ingestão de leite ao longo da vida é algo problemático para muita gente. Estima-se que cerca de dois terços da população mundial sentem desconforto ao tomar leite devido à intolerância ao açúcar presente na bebida — a lactose –, segundo Adriane Antunes de Moraes, professora do curso de Nutrição da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp. Além disso, há quem tenha alergia à proteína do leite, problema mais raro, no entanto, bem mais grave. E há quem associe o leite a outros males. &quot;A exploração industrial do leite exige que as vacas fiquem prenhas. A cria da vaca, o bezerro, acaba sendo um subproduto dessa produção, o que provoca sofrimento em animais&quot;, diz Eric Slywitch, médico nutrólogo e diretor do departamento de nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira. O leite também pode ter alta concentração de agrotóxicos quando a criação de animais que o fornece ocorre onde há uso desses produtos. Muitos agrotóxicos são lipossolúveis — se associam à gordura do leite. Para algum alívio dos apreciadores, poderíamos arriscar dizer que a problemática termina por aí. Segundo os especialistas consultados pelo UOL, associar o leite a outros tipos de alergia ou dizer, por exemplo, que ele bloqueia a glândula pineal, que fica no cérebro, não passam de exageros. Não é necessário temer o leite nem e os mitos ligados a ele. O leite desnatado, por exemplo. De fato, tem menos gordura, mas não é o mais recomendado para todas as pessoas. Se você não quer perder peso e nem tem colesterol alto, não precisa radicalizar: que tal o caminho do meio, o do leite semidesnatado? Uma última dica: a digestão do leite libera calmantes naturais. Um copo antes de deitar ajuda a pegar no sono! <b>Por que precisamos tomar leite?</b> O leite é fonte de diversos nutrientes. Os dois mais importantes são a proteína e o cálcio. As proteínas do leite — a principal é a caseína — são de muito boa qualidade. Quanto ao cálcio, os laticínios são a nossa principal fonte desse mineral, chegando a representar 70% da quantidade que ingerimos, segundo Adriane Antunes de Moraes. No leite também há lipídios (gorduras), fósforo, magnésio, vitamina B2, vitamina A, vitamina D. A bebida é rica em calorias (cerca de 600 kcal em 1 litro de leite), servindo de combustível para nosso corpo. Dentre outros benefícios, o leite auxilia na recuperação muscular, importante para quem pratica atividade física, fortalece os ossos e pode prevenir hipertensão arterial, diz a professora do curso de nutrição da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp. <b>Leite é indicado para todas as idades</b> Todo mundo precisa tomar leite — ou encontrar bons substitutos. &quot;Em cada faixa, há uma importância&quot;, diz o nutrólogo Carlos Alberto Nogueira. Bebês não mastigam nos primeiros meses de vida, sendo o leite materno seu único alimento. É pela amamentação que uma flora intestinal saudável é composta. Já a lactose é importante para o desenvolvimento do cérebro. O leite de vaca só deve entrar na dieta, para beber e em receitas, a partir de um ano de idade. Na infância e adolescência, o leite ajuda no crescimento, fortalece os ossos e garante a saúde dos dentes. A gestante e a mulher que está amamentando também precisam de leite &quot;para que não ocorra retirada de cálcio dos ossos da mãe&quot;, diz a professora Adriane Antunes de Moraes, da Unicamp. Por fim, o leite é importante para mulheres após a menopausa e idosos, que tendem a absorver menos cálcio. <b>Quem tem alergia não pode tomar leite?</b> Há pessoas que têm alergia à proteína do leite de vaca. O problema é raro e grave. Ocorre principalmente em crianças e bebês, que possuem o trato intestinal pouco desenvolvido. Segundo pesquisa de Adriane Antunes de Moraes, professora de nutrição da Unicamp, a incidência dessa alergia no primeiro ano de vida pode variar entre 2 e 3%. Quando a mãe não pode amamentar, existem fórmulas especiais que substituem o leite materno. O indivíduo alérgico ao leite precisa interromper totalmente o consumo. Contudo, a hipersensibilidade às proteínas do leite tende a diminuir com o passar dos anos — acometendo apenas entre 0,1 e 0,5% da população, segundo Moraes. Para o nutrólogo Carlos Alberto Nogueira, a criança alérgica precisa de acompanhamento médico para garantir uma boa adaptação do organismo e a cura da alergia. <b>Qual quantidade você deve (ou deveria) tomar?</b> Para fazer esse cálculo, vamos lembrar dos dois nutrientes principais do leite, a proteína e o cálcio. &quot;Em algumas dietas nos quais as fontes de proteína de origem animal são pequenas, as proteínas do leite podem representar um diferencial importante&quot;, diz Adriane Antunes de Moraes, professora da Unicamp. Contudo, nossa necessidade proteica pode ser complementada ou até suprida por outros alimentos. Um copo de leite tem 6g de proteína. Já um bife de carne de vaca possui 27g e um filé de peixe, 23g. Agora, para obter cálcio na dieta, é mais difícil fugir do leite. A recomendação de ingestão de cálcio é de 1.000 mg por dia para adultos — crianças, jovens e idosos podem precisar de mais. Como um copo de leite (200 ml) possui cerca de 240 mg de cálcio, precisaríamos beber quatro copos, o que pode ser exagerado. &quot;Ele é um alimento como qualquer outro. Quem beber muito, pode passar mal&quot;, lembra o nutrólogo Carlos Alberto Nogueira. Numa dieta saudável, a quantidade necessária de nutrientes está bem distribuída numa grande variedade de alimentos. Assim, um ou dois copos de leite por dia integram bem um cardápio rico sem provocar maiores incômodos no sistema digestório (antes chamado de sistema digestivo). <b>Qual a diferença entre leite A, B, C, longa-vida e cru</b> Caso você tenha uma vaca leiteira e siga diversos cuidados de higiene, você até poderia beber o leite, que neste caso é chamado de leite cru, mas seu consumo não é recomendável, e a venda é proibida. No Brasil, só é permitida a comercialização do leite que passa por processo de pasteurização, que garante a eliminação de bactérias danosas. Há uma confusão muito comum, de que o leite tipo A possui menos gordura que os outros. Errado. Todo leite é igual em nutrientes. É o número de bactérias residuais encontradas no leite que determina seu tipo: A, B ou C. O leite de tipo B e C recebe menos cuidados – ordenha pode ser manual para o leite C, leite pode ser armazenado em latões, pode ter até 40 mil bactérias por mililitro. Já o leite A exige ordenha mecânica, resfriamento imediato, instalações mais bem equipadas e máximo de 500 bactérias por mililitro. Há ainda um quarto tipo, o leite longa-vida (ou UHT), que passa por processo mais intenso de eliminação de bactérias, chamado de ultrapasteurização, e recebe a adição de estabilizantes, possuindo período de conservação maior que o dos outros leites. Contudo, a ultrapasteurização pode levar à perda de alguns nutrientes. <b>Integral, semi-desnatado e desnatado: qual tomar?</b> É a diferença na quantidade de gordura que determina essa diferença. O integral tem um teor mínimo de 3%, enquanto o semidesnatado varia de 0,6 a 2,9% e o desnatado tem no máximo 0,5%. O leite desnatado possui menos gordura, mas isso não significa que seja o mais indicado para todos. Quem não possui sobrepeso e não enfrenta problemas como o de colesterol alto, não precisa evitar a gordura do leite. Pelo contrário, a gordura existente no alimento compõe uma alimentação rica. Para Maria Carolina von Atzingen, nutricionista da Faculdade de Saúde Pública da USP, o leite semi-desnatado é o mais indicado para pessoas saudáveis por conter um teor menor de gordura que o integral e contribuir com uma dieta equilibrada. &quot;O desnatado deve ser escolhido por indivíduos que precisam reduzir os níveis do colesterol LDL do sangue, o popularmente conhecido como colesterol ruim, e por quem quer perder peso&quot;, completa a especialista. <b>Leite, sol e vitamina D, tudo a ver</b> O leite é fonte rica de cálcio. Mas o aproveitamento desse mineral depende muito da ingestão de vitamina D e da exposição ao sol. A pesquisadora da Unicamp Adriane Antunes de Moraes apresenta explicação interessante. &quot;Há aproximadamente 400 milhões de anos os vertebrados deixaram o ambiente aquático, rico em cálcio, e passaram a viver fora dos oceanos. No novo ambiente, a quantidade de cálcio disponível nos alimentos era pequena. A vitamina D passou a desempenhar importante papel aumentando a absorção do cálcio&quot;. A exposição ao sol induz à produção de vitamina D. Contudo, como as pessoas não tomam sol o suficiente – devido à pouca exposição associada ao modo de vida e à proteção contra danos provocados pelos raios solares -, conseguir vitamina D de outras fontes tornou-se fundamental.

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