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por Dra. Licinia de Campos, nutricionista Focamos em nossa dieta a suplementação de cálcio, mas não paramos para nos perguntar o porquê de tanto cálcio consumido ser desperdiçado. Normalmente, absorvemos apenas cerca de 10% do cálcio ingerido. Falar então da dinâmica que impacta a absorção do cálcio pode ser interessante para as pessoas preocupadas em manter e construir ossos fortes. O cálcio é essencial para a transmissão nervosa, coagulação do sangue, contração muscular, atua também na respiração celular, além de garantir uma boa formação e manutenção de ossos e dentes. Por sua presença na formação óssea o cálcio é um dos elementos mais abundantes no corpo humano. Entre os fatores que influenciam a absorção do cálcio há três reguladores principais do metabolismo do cálcio no organismo. As glândulas da paratireóide produzem um hormônio, o paratormonio, que retira o cálcio dos ossos para a corrente sanguínea. Também sinaliza aos rins para conservar o cálcio e outros minerais da urina. Além disso, o paratormonio sinaliza aos rins a produção de calcitrol, formado a partir da vitamina D, e também dá os sinais ao intestino delgado para absorver mais cálcio. A glândula tireóide secreta calcitonina, aumentando a mineralização dos ossos e diminuindo a proporção pela qual os ossos são lisados. Quaisquers fatores que interfiram com esse mecanismo, ou alterem o delicado equilíbrio, são fatores de risco para propiciar impactos negativos na mineralização óssea. Os itens citados a seguir, muitos dos quais têm suas raízes na nossa dieta moderna, são fatores de risco, alguns com motivos surpreendentes na interferência com o metabolismo do cálcio: 1. Dietas ricas em ácido fítico, encontrado no farelo de grãos integrais, têm maiores chances de interferir com a absorção do cálcio. Este ácido se liga a vários minerais, incluindo o cálcio, para formar sais insolúveis, chamados de fitatos, que são eliminados pelo organismo. Provavelmente por serem os grãos uma fonte relativamente nova como alimentos, do ponto de vista da perspectiva evolucionária, parece que o trato digestório ainda não desenvolveu mecanismos para quebrar estes fitatos. 2. Dietas ricas em sódio podem interferir com a absorção do cálcio. Alguns pesquisadores acreditam que os níveis dietéticos de sódio foram extremamente baixos no passado, em comparação com as dietas modernas e o aumento da ingestão em sódio pode resultar em aumento da excreção do cálcio. 3. O ácido oxálico, encontrado com maior predominância na mandioca, espinafre, cenoura e rabanete, se liga ao cálcio, portanto o consumo contínuo destes alimentos deve ser evitado em pessoas com deficiência de cálcio. Suplementos de cálcio ingeridos juntamente com alimentos ricos em ácido oxálico podem fazer com que o oxalato de cálcio se precipite. O oxalato de cálcio precipitado é conhecido como pedras nos rins (cálculo renal). O ácido oxálico também é encontrado em menor quantidade na couve de folhas e de bruxelas, alho, feijão, batata-doce, brócolis e agrião, no entanto muitos destes últimos possuem quantidade significativas de cálcio. Deve-se observar também que a cenoura é uma das principais fontes vegetais de vitamina A, a abóbora poderia substituí-la em uma dieta. 4. A vitamina D é formada pela interação entre os raios de sol e os óleos da pele. Sem suplementação, podemos estar em risco de inadequação em vitamina D, pois atualmente passamos a maioria das horas de luz solar no interior das casas. Como mencionado anteriormente, esta vitamina é um fator regulador da absorção do cálcio. Considerando os níveis circulantes de vitamina D através dos anos, provavelmente foram mais ricos na Idade da Pedra, pois estiveram mais propensos a estarem expostos aos raios solares. Há evidências sugerindo que muitos idosos nos países ocidentais são deficientes em vitamina D. Tratar mulheres idosas com suplementação medicamentosa de vitamina D não é uma má idéia. 5. Nossa vida sedentária também interfere com a mineralização de nossos ossos. Nossos ancestrais foram muito mais ativos que somos. O estresse impacta nos ossos, como durante a caminhada ou exercícios, e tende a aumentar a produção de calcitonina, levando ao aumento de deposição do cálcio nos ossos. O estresse induzido por exercício aumenta a área cruzada seccionada e talvez a densidade mineral óssea. É importante notar que nadar e andar de bicicleta não são exercícios tão benéficos porque estas atividades não provocam a produção de calcitonina. 6. Ao mesmo tempo que as dietas modernas, no mundo ocidental, geralmente contêm bastante fontes de cálcio, oferecem níveis inadequados de magnésio. Os estudos das dietas pré-agrícolas de nossos ancestrais indicam que o magnésio era consumido na proporção de cerca de 1:1 em relação ao cálcio. Portanto, esta deveria ser a proporção estimada que nossos organismos deveriam ter. A proporção Ca:Mg nas dietas pós-agrícolas é de cerca de 4:1. Como tanto o cálcio como o magnésio competem pelos mesmos mecanismos de absorção, a ingestão desequilibrada associada com a nossa dieta moderna conduz à deficiência em magnésio. Uma das consequências da deficiência em magnésio é a inibição dos osteoblastos, células construtoras e mantenedoras dos ossos. 7. O açúcar foi correlacionado com a interferência do equilíbrio cálcio/fósforo. Melvin Page reportou que o açúcar aumenta o cálcio sanguíneo pela reabsorção do tecido ósseo. Embora o açúcar não possa estar implicado nas mudanças osteoporóticas, Li et al encontraram indicações claras de densidade óssea depletada em seu estudo animal com açúcar dietético. 8. O ácido fosfórico, encontrado em refrigerantes, têm sido relacionado com a interferência da absorção do cálcio. Para bem utilizar o cálcio, além da vitamina D, necessitamos de 1,5g de fósforo e de 0,5g de magnésio para cada grama de cálcio. Normalmente obtemos bastante fósforo, com frequência, mais do que necessitamos. Embora o fósforo seja necessário, como é abundante na nossa dieta, este aumento de ingestão eleva nossas necessidades em cálcio e magnésio, assim é importante limitar refrigerantes por conterem muito fósforo e açúcar. Uma das funções do cálcio é diminuir a acidez do organismo. Uma alimentação muito ácida exigirá mais cálcio portanto este tipo de alimento (como refrigerantes, pimenta, vinagre, frutas cítricas) deve ser evitado por pessoas com deficiência do mineral. 9. O café reduz os níveis de inositol no sangue. Inositol é um fator reaglutinante do metabolismo do cálcio. Inibe a formação das células (osteoclastos) que retiram o cálcio dos ossos para a corrente sanguínea. Exerce também influência direta no transporte do cálcio para dentro das células. 10. Embora a dinâmica ainda não seja totalmente compreendida, o fumo de tabaco também parece interferir com a mineralização óssea. Alguns pesquisadores reportam que a formação de osteoblastos é inibida pela nicotina. Os estudos realizados em animais com doses crônicas de nicotina relatam esta perspectiva, demonstrando a redução da massa óssea. Os estudos de grandes grupos mostram redução na massa óssea de fumantes, mas há debates sobre a causa. 11. Doença celíaca não diagnosticada é outra causa de depleção em cálcio dos ossos. Os dados recentes apurados sugerem que 95% dos celíacos nos EUA são não diagnosticados. Para aqueles que têm esta condição há má absorção dos minerais lipossolúveis e vitaminas, especialmente cálcio e vitamina D. Os adultos diagnosticados com doença celíaca estão associados em geral com menor grau de densidade óssea reduzida. A doença celíaca mal manejada é também um fator de risco para osteoporose. Portanto, se estiver preocupado com a mineralização óssea, e os fatores acima citados, com interferência na absorção do cálcio, os especialistas sugerem as seguintes estratégias: a) Obter fibras de frutas e hortaliças, minimizando o consumo de farelos; b) Minimizar a ingestão em sal; c) Passar um tempo regular ao sol, ou suplementar com vitamina D; d) Exercitar-se bastante com exercícios anti-gravidade; e) Assegurar que sua ingestão em magnésio esteja adequada; f) reduzir a ingestão de açúcares; g) evitar refrigerantes; h) evitar café; i) não fumar; j) submeter-se aos testes diagnosticadores de doença celíaca. Referências bibliográficas: 1. Vander A, _Renal Physiology_ McGraw Hill, N.Y., 1975, p. 123 2. Tortora G, Grabowski S, _Principles of Anatomy & Physiology_ Harper Collins, N.Y., 1996 p.525 3. Lindeberg S, http://maelstrom.stjohns.edu/CGI/wa.exe?A2=ind9706&L=paleodiet&P=850 4. Lindeberg S, http://maelstrom.stjohns.edu/CGI/wa.exe?A2=ind9706&L=paleodiet&P=2282 5. Lau EM, et al. 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